“Elas dizem que, com o mundo cheio de ruído, as vêem a apoderar-se já das cidades industriais. Elas estão nas fábricas nos aeródromos nas estações de rádio. Controlam as comunicações. Já deitaram mão às fábricas de aeronáutica de electrónica de balística de informática. Estão nas fundições nos altos-fornos nos estaleiros navais nos arsenais nas refinarias nas destilarias. Apoderaram-se das bombas das prensas das alavancas dos laminadores dos guindastes das roldanas das gruas das turbinas dos martelos pneumáticos dos arcos dos maçaricos. Elas dizem que as vêem deslocar-se com força e alegria. Dizem que as ouvem gritar e cantar: o Sol pode brilhar / o mundo pertence-nos.“
Monique Wittig, As Guerrilheiras (Antígona, 2024)
Monique Wittig, escritora e teórica francesa é uma das mais influentes teóricas do feminismo radical e do lesbianismo materialista, revolucionou o pensamento político no século XX, contribuindo substancialmente para o surgimento de estudos sobre a opressão das mulheres e das pessoas LGBTQI+. Entre os seus livros mais famosos contam-se O Corpo Lésbico, Pensamento Heterossexual e As Guerrilheiras.
Em 1969, Wittig publica o seu segundo romance, Les Guérillères (As Guerrilheiras). A obra retrata a emergência de novas comunidades de afetos e desejos num mundo pós-guerra contra as classes de sexo. Trata-se de um relato de uma revolução social narrado por meio de uma revolução de conceitos perpetrada pela autora, que confere à linguagem a potencialidade de subverter a ordem social e política.


Nesta obra literária encontramos a história de uma tribo de mulheres, uma sociedade lésbica, livre e sensual, com um património de lendas, risos e canções, que, perante o cerco de um exército masculino, é forçada a travar um combate violento e cruel.
Um romance revolucionário em forma e conteúdo em que Wittig parece plasmar uma concepção que atravessou toda a sua trajetória intelectual: revoluções sociais devem ser acompanhadas de revoluções linguísticas, sem as quais é impossível destruir o imaginário heterossexual e as suas instituições.
São raras as traduções dos romances de Wittig para o português tendo sido feita a primeira recentemente pela Antígona.
ISBN: 978‑972‑608‑459-4 Editora: Antígona Páginas: 184