A leitura é, provavelmente, uma outra maneira de estar num lugar, escreveu o Nobel da literatura portuguesa, José Saramago.
Fonte inesgotável de conhecimento e prazer, poderosa ferramenta de influência e transformação política, a leitura e a liberdade intelectual chegam até a ser censuradas por regimes repressivos, ditatoriais e totalitaristas, levando a que a informação, o espírito crítico sejam negados a grande parte das pessoas.
Em pleno século XXI, assistimos cada vez mais a discursos de ódio, à propagação do medo e de conteúdos de desinformativos quanto a questões de género e sexualidade. Na Europa, EUA, Brasil e um pouco por todo o mundo, assiste-se à criação de campanhas de proibição de livros de temática LGBTQIA+. Com base em justificações de “promoção da homossexualidade” ou da “propaganda da ideologia de género”, grupos ideológicos conservadores mostram atentar a autodeterminação, a liberdade de expressão, a autodescoberta e visibilidade das experiências de pessoas LGBTQIA+.
Recordando a célebre frase de Oscar Wilde, preso numa altura em que a homossexualidade era considerada como vício e decadência, diria: “Não existem livros morais ou imorais. Os livros ou são bem escritos ou não.”
Reconhecendo a importância da leitura e da educação para as temáticas de igualdade e não discriminação, pretendemos conhecer as estantes Queer e Feministas de algumas personalidades portuguesas. De forma a partilhar novos mundos que os livros encerram, questionamos:
Qual o livro que mais a marcou/influenciou pessoal e profissionalmente?
Pessoalmente acredito que os livros que mais nos marcam são os que absorvemos na infância e adolescência, e como eu fui sempre uma leitora voraz (mais então até do que agora, porque tinha mais tempo e menos distrações), a lista seria longa. Talvez as duas séries de livros que lia e relia mais apaixonadamente (em tradução polaca, claro) fossem a iniciada com Anne of Green Gables (em polaco Ania z Zielonego Wzgórza), da canadiana Lucy Maud Montgomery (1874-1942), e os romances ambientados no “Wild West” dos Estados Unidos do alemão Karl May (1842-1912), sobre as aventuras do nobre índio Winnetou e do seu amigo branco, alcunhado de Old Shatterhand. Já explicar como essas leituras marcaram a minha personalidade dava todo um tratado (precedido forçosamente de algumas sessões de psicanalise)…




Em termos profissionais, diria que a descoberta da teoria e crítica feminista durante a pós-graduação nos Estados Unidos (na Polónia antes dos anos 90 essas leituras não existiam) foi a viragem mais decisiva no meu pensamento e na minha vida, uma vez que ainda agora, uns 35 anos mais tarde, continuo no caminho que então se abriu para mim. A derivação queer veio mais tarde, mas foi igualmente impactante. É difícil selecionar um único livro, ou mesmo dois ou três, até porque diferentes rumos de investigação exigem abordagens e enquadramentos distintos. Como o meu projeto atual incide sobre a história cultural das mulheres (principalmente portuguesas) que amaram mulheres, vou citar o estudo da historiadora Martha Vicinus, Intimate Friends: Women Who Loved Women, 1778-1928, que, apesar de não ter nada a dizer sobre Portugal, é imensamente útil para qualquer tentativa de mapeamento histórico da “existência lésbica” (para ecoar este conceito crucial de Adrienne Rich).


Algum autor/a com que se identifica mais e que segue há mais tempo?
Gosto imenso dos romances de Sarah Waters, e sofro autenticamente com o facto de esta escritora não publicar nenhum livro novo há quase dez anos. Há sempre o recurso de reler os romances favoritos dela, suponho, e nesse caso os primeiros na fila seriam Affinity (1999) e Fingersmith (2002), ambos situados na época vitoriana e extraordinariamente cativantes, sobretudo na primeira leitura (a desvantagem principal da releitura é que as surpresas, que Waters sabe montar muitíssimo bem, deixam de surpreender).


Qual a leitura que acompanha e recomendaria aos nossos leitores?
A descoberta literária que mais me seduziu nos últimos anos foi a trilogia Broken Earth (2015-2017) da autora norteamericana N. K. Jemisin, que li ao longo de um dos verões pandémicos. É um prodígio da imaginação entrelaçada com o pensamento crítico no exercício de world-building, que me apaixonou mais do que qualquer outra obra deste género desde Ursula LeGuin (que a escrita de Jemisin nitidamente evoca, aliás, ao mesmo tempo expandindo os horizontes leguinianos). Verifico que a trilogia foi editada em Portugal, pela Relógio d’Água, com o título cumulativo de Terra Fraturada, e não parece estar esgotada (ao contrário dos romances de Waters, segundo me dizem amigues portugueses), portanto é esta a recomendação que deixo para a época natalícia.


Anna M. Klobucka nasceu na Polónia em 1961. Emigrou para os Estados Unidos em 1986, doutorando-se em Línguas e Literaturas Românicas, com a especialização em Português, pela Universidade Harvard em 1993. Leciona atualmente nos Departamentos de Português e de Women’s and Gender Studies da Universidade de Massachusetts Dartmouth. Entre as suas publicações encontram-se os ensaios Mariana Alcoforado: Formação de um Mito Cultural (IN-CM, 2006), O Formato Mulher: A Emergência da Autoria Feminina na Poesia Portuguesa (Angelus Novus, 2009) e O Mundo Gay de António Botto (Documenta, 2018).