A Sociedade não queria que eu usasse calças, nem que assobiasse, nem que jogasse à bola, nem que trepasse às árvores, a Sociedade não queria que eu fizesse perguntas nem que lesse alguns livros. A Sociedade era um NÃO gigante contra os meus desejos.
Há escritoras cuja obra parece atravessar toda uma vida; há outras cuja própria vida se transforma em matéria literária. Em A Insubmissa, agora publicado em Portugal pela Editora Antígona, com tradução de Guilherme Pires, Cristina Peri Rossi oferece um romance autobiográfico que é, ao mesmo tempo, uma memória de formação, um manifesto de liberdade e um testemunho de resistência.
Figura maior da literatura em língua espanhola, Cristina Peri Rossi nasceu em Montevideu, em 1941. Censurada pela ditadura uruguaia, exilou-se em Barcelona em 1972, cidade onde continua a viver e a escrever. A sua obra, que atravessa a poesia, o romance, o conto e o ensaio, tem sido distinguida com alguns dos mais importantes prémios literários do mundo hispânico, entre eles o Prémio Cervantes, atribuído em 2021. A sua escrita regressa insistentemente a temas como o exílio, a identidade, o desejo, a dissidência e a liberdade, construindo uma voz singular, simultaneamente política e profundamente íntima.
Em A Insubmissa, publicado originalmente em 2020, Peri Rossi revisita a infância e a juventude através de uma narradora que aprende muito cedo a desconfiar das normas impostas. O universo familiar, a escola, a religião e a sociedade aparecem como espaços de disciplina e conformismo, perante os quais a protagonista responde com uma curiosidade obstinada, uma imaginação sem concessões e uma vontade inabalável de permanecer fiel a si própria.
Mais do que uma autobiografia, este é um romance de formação onde cada episódio ilumina o nascimento de uma consciência crítica. A menina que recusa aceitar a violência como natural, que descobre nos livros um território de liberdade, que questiona as convenções impostas às mulheres e reconhece desde cedo a singularidade do seu desejo, é já a escritora que fará da literatura um lugar de insubordinação permanente.
Num tempo em que regressam discursos de intolerância e se reacendem debates sobre direitos, identidade e liberdade de expressão, A Insubmissa recorda que a resistência começa muitas vezes na infância, através das perguntas que recusam respostas fáceis e da coragem de permanecer diferente. É um livro sobre a formação de uma escritora, mas também sobre a formação de uma consciência livre.