Publicada originalmente em 2012 e há muito esgotada, a obra dedicada às mulheres e à cultura artística entre os séculos XVI e XX ganha uma nova edição pela Tinta-da-china, com prefácio de Delfim Sardo.
Catorze anos depois da primeira edição, publicada pela Babel em 2012, A Arte sem História: Mulheres e cultura artística (séculos XVI–XX), de Filipa Lowndes Vicente, regressa às livrarias. A segunda edição da obra será publicada pela Tinta-da-china e estará disponível a partir de 10 de setembro de 2026.
Há muito esgotado, o livro propõe uma reflexão sobre a forma como a história da arte tem vindo a estudar a prática artística das mulheres, sobretudo na Europa, entre os séculos XVI e XX. Mais do que recuperar nomes e obras esquecidos, interroga os próprios mecanismos através dos quais a disciplina construiu o seu cânone e determinou quem poderia — ou não — ocupar um lugar na história.
Nesse sentido, A Arte sem História é também uma história da história da arte: uma história de como a arte produzida por mulheres foi, durante tanto tempo, ignorada e desvalorizada — uma arte sem história. E de como, nas últimas décadas, as abordagens feministas abriram caminho para que exista, finalmente, uma arte com história.
Ao analisar as condições sociais e culturais que limitaram o acesso das mulheres à formação, à profissionalização, à exposição e ao reconhecimento, Filipa Lowndes Vicente evidencia que a ausência de mulheres nas narrativas dominantes não resultou de uma falta de produção artística. Resultou, antes, dos processos de seleção, legitimação e consagração que sustentaram a disciplina e os seus museus, arquivos e instituições.
A nova edição não se limita a recuperar o texto publicado em 2012. A autora regressa à obra a partir de uma perspetiva crítica feminista, reconhecendo algumas das suas lacunas e refletindo sobre as escolhas que orientaram a investigação.
Entre essas limitações encontra-se o caráter demasiado eurocêntrico do livro e o predomínio da historiografia anglo-americana, que fizeram da Europa e dos Estados Unidos o centro da sua geografia. Embora esta delimitação possa ser parcialmente explicada pela genealogia europeia da história da arte e pelo período histórico analisado, a autora reconhece que também reproduz os “círculos viciosos do conhecimento”, conduzindo a investigação pelos caminhos mais desbravados e canónicos.
Filipa Lowndes Vicente identifica ainda a necessidade de conceder maior relevância às questões raciais e de identidade sexual. Como escreve:
“Se o tivesse escrito hoje, o livro seria, sem dúvida, mais interseccional, cruzando identidades de género com identidades sexuais e raciais.”
Esta releitura torna a reedição particularmente pertinente. Além de recuperar uma obra fundamental para pensar a invisibilização das mulheres artistas, convida a alargar a própria crítica feminista, questionando quem permanece nas margens quando se procura corrigir os silêncios da história.
Com prefácio de Delfim Sardo, a nova edição de A Arte sem História chega às livrarias a 10 de setembro. Uma oportunidade para descobrir — ou revisitar — uma reflexão incontornável sobre as relações entre arte, género, poder e memória.