À Conversa sobre Livros com André e. Teodósio

A leitura é, provavelmente, uma outra maneira de estar num lugar, escreveu o Nobel da literatura portuguesa, José Saramago.

Fonte inesgotável de conhecimento e prazer,  poderosa ferramenta de influência e transformação política, a leitura e a liberdade intelectual chegam até a ser censuradas por regimes repressivos, ditatoriais e totalitaristas, levando a que a informação, o espírito crítico sejam negados a grande parte das pessoas. 

Em pleno século XXI, assistimos cada vez mais a discursos de ódio, à propagação do medo e de conteúdos de desinformativos quanto a questões de género e sexualidade. Na Europa, EUA, Brasil e um pouco por todo o mundo, assiste-se à criação de campanhas de proibição de livros de temática LGBTQIA+. Com base em justificações de “promoção da homossexualidade” ou da “propaganda da ideologia de género”, grupos ideológicos conservadores mostram atentar a autodeterminação, a liberdade de expressão, a autodescoberta e visibilidade das experiências de pessoas LGBTQIA+.

Recordando a célebre frase de Oscar Wilde, preso numa altura em que a homossexualidade era considerada como vício e decadência, diria: “Não existem livros morais ou imorais. Os livros ou são bem escritos ou não.”

Reconhecendo a importância da leitura e da educação para as temáticas de igualdade e não discriminação, pretendemos conhecer as estantes Queer e Feministas de algumas personalidades portuguesas. De forma a partilhar novos mundos que os livros encerram, questionamos:

Leitor compulsivo, numa entrevista ao Público em 2014 comentavas: “O meu pai comprava livros ilegais na Barateira. Esta sede de informação estava nele desde cedo.”, de que forma é que estas memórias influenciaram o leitor que és hoje e o gosto que nutres pelos livros?

Os livros são uma presença transversal a todas as gerações da minha familia. Cresci num ambiente em que cada casa e cada pessoa dessa casa tinha a sua biblioteca. A leitura foi-me incutida e, ao contrário da jogos e outras diversões, lembro-me de não ter limite de verba disponibilizada para a compra de livros. Curiosamente, quando regressei dos E.U.A., passava os dias a encontrar raridades na Barateira, que era ao lado da minha escola de música. De certa forma tentei começar com uma tradição familiar que parou porque a Barateira fechou.

Tens algum hábito de leitura que não prescindas?

Silêncio, um lápis na mão e a possibilidade de saltar de livro em livro.

Conhecemos-te, também, como uma figura das artes, membro do Teatro Praga e autor de diferentes textos publicados, tens para ti algum trabalho que mais te tenha marcado e que sintas uma reciprocidade com o público?

Estou em todos os espectáculos com a mesma intensidade de investimento. Como os espectáculos são todos diferentes, acionam e potenciam coisas diferentes (em mim, no público e nos espaços apresentados).

Qual a leitura que te acompanha de momento e que recomendarias aos nossos leitores?

As minhas leituras dividem-se em dois campos: o laboral e o recreativo. Infelizmente, porque acho que tenho sempre de estar a fazer coisas, a maior parte das minhas leituras são de âmbito laboral. Eu sei que estes dois campos se cruzam porque a fronteira entre as duas é de difícil definição; não obstante, o que isso instaura é um ritmo veloz. Em termos laborais ando a ler livros de memórias de pessoas de teatro, como os de Costa Ferreira, livros de história do teatro, como os volumes “Em casa do Diabo” de Eduardo Scarlatti. Em termos recreativos, ando absorvido por livros esquecidos: a obra de Júlio Cesar MachadoAlfredo Gallis, e livros do século XIX sobre sexualidade, neurologia e bruxaria.

 

No ano em que celebramos os 50 anos do 25 de abril de 1974, o Leituras Queer pretende lembrar autorxs e obras portuguesas que iluminem o caminho democrático perante a sombra das novas lutas político-ideológicas radicais.

Consegues partilhar algum/a autor/obra que mais te tenha marcado e que visibilize o melhor da literatura queer e/ou feminista em Portugal?  

Uma parte da minha biblioteca é dedicada a autoras e autores LGBTQI+ que escrevem ou escreviam em português. Uma coleção que comecei muito novo e que consome uma grande parte dos meus recursos. E ainda que sejam todos livros importantes, não tenho dúvidas em escolher um de um autor que descobri quando cheguei a Portugal, na tal livraria Barateira, o escritor Guilherme de Melo. Nos anos em que esteve vivo consumi tudo do autor mas, talvez por ser demasiado extenso e em sempre editado numa fonte demasiado pequena, fui adiando a leitura “A sombra dos dias”. É talvez dos livros mais incríveis e importantes da denominada “literatura queer” que li. Eu sei que sou hiperbólico mas tenho toda a certeza que se tivesse lido este livro na adolescência teria tido uma vida ainda mais bonita. Deveria ser reeditado, tornado série, tudo o que puder ser. É Arte.

 

 

André e. Teodósio (Lisboa, 1977), membro da companhia Teatro Praga, integrou as companhias Casa Conveniente e Cão Solteiro. Encena teatro, ópera, ballet e performances e apresenta os seus trabalhos nos mais prestigiados teatros e museus nacionais e internacionais. É autor de programas de televisão, conferencista e professor universitário. Tem os seus textos editados na Documenta, Tinta da China, Douda Correria, Culturgest, Câmara Municipal do Porto, Serralves entre outros. Entre os inúmeros prémios recebidos, foi nomeado pelo Jornal Expresso como um dos 100 portugueses mais influentes.