À Conversa sobre Livros com André Murraças

A leitura é, provavelmente, uma outra maneira de estar num lugar, escreveu o Nobel da literatura portuguesa, José Saramago.

Fonte inesgotável de conhecimento e prazer,  poderosa ferramenta de influência e transformação política, a leitura e a liberdade intelectual chegam até a ser censuradas por regimes repressivos, ditatoriais e totalitaristas, levando a que a informação, o espírito crítico sejam negados a grande parte das pessoas. 

Em pleno século XXI, assistimos cada vez mais a discursos de ódio, à propagação do medo e de conteúdos de desinformativos quanto a questões de género e sexualidade. Na Europa, EUA, Brasil e um pouco por todo o mundo, assiste-se à criação de campanhas de proibição de livros de temática LGBTQIA+. Com base em justificações de “promoção da homossexualidade” ou da “propaganda da ideologia de género”, grupos ideológicos conservadores mostram atentar a autodeterminação, a liberdade de expressão, a autodescoberta e visibilidade das experiências de pessoas LGBTQIA+.

Recordando a célebre frase de Oscar Wilde, preso numa altura em que a homossexualidade era considerada como vício e decadência, diria: “Não existem livros morais ou imorais. Os livros ou são bem escritos ou não.”

Reconhecendo a importância da leitura e da educação para as temáticas de igualdade e não discriminação, pretendemos conhecer as estantes Queer e Feministas de algumas personalidades portuguesas. De forma a partilhar novos mundos que os livros encerram, questionamos:

Qual o livro que mais te marcou/influenciou pessoal e profissionalmente?

É impossível escolher um, obviamente. Mas diria que ler O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, em adolescente me abriu a porta para um mundo estranho, victoriano, onde o vilão era homossexual, onde existia uma rara noção de beleza no terror narrado. Tudo isto escrito com uma beleza que ainda hoje me persegue. O Wilde tornou-se um dos meus escritores preferidos. As suas peças de teatro, as comédias, mas também a sua trágica Salomé, assombram-me sempre em cada leitura. Repito frases dele aqui e ali, e pior que isso, comove-me imenso a sua vida e o seu final. O Wilde lembra-me sempre o quanto fomos mal tratados enquanto pessoas queer, mas também, o quanto tratámos mal o nosso passado.

 

 

Algum autor/a com que te identificas mais e que segues há mais tempo?

Neil Bartlett. É encenador, dramaturgo, intérprete e também escreve romances. Identifico-me com o seu trabalho de teatro que mistura passado e presente, clássicos com noir. Que honra quem já cá não está. A nível de ficção queer marcou-me o seu Ready to catch him should he fall, que mistura géneros, universos, passados, e me fez companhia num inverno longe de casa quando eu estava a estudar no estrangeiro. Tive o privilégio de ir a uma estreia de uma peça sua em Londres e de conseguir falar com ele durante um bocado no bar do teatro e, ao contrário daquela ideia de que não devemos conhecer os nossos ídolos, foi uma conversa incrível.

 

Qual a leitura que acompanhas e recomendarias aos nossos leitores?

Leio biografias, romance, teatro, poesia. Estou sempre em mil lugares e lado nenhum. Pelo natal recebi o Imagem Fantasma, do Hervé Guibert, que levanta questões importantes sobre representação e fantasmas (ideias que me seduzem sempre). Sugiro ainda reler o recém editado conjunto dos poemas de Pedro Homem de Mello (fase 1934-1961) e que o façamos pensando na sua escrita por entre uma ditadura. E estou a ler também muitas coisas em espanhol (por pesquisa para um futuro projecto) e portanto recomendaria Federico Garcia Lorca e Luis Cernuda.

 

 

Após a recém-publicação de “Sombras Andantes / O Triângulo Cor-de-Rosa / Fronteiras”, o teu último livro, pode-nos falar um pouco sobre esta obra? O que podem os leitores esperar desta leitura?

É o meu terceiro livro de peças de teatro que publico com os Artistas Unidos. São três textos de três espectáculos que fiz recentemente.

Fronteiras fala de pessoas que fugiram das suas origens e mudaram de lugar para tentar uma vida melhor. Foca desde os emigrantes que fizeram Nova Iorque e vai até ao refugiados dos barcos de borracha que chegam do Norte de África e onde muitos são LGBTQ, com uma dupla camada de tragédia.

Triângulo Cor-de-Rosa é um conjunto de histórias que ilustram a perseguição que os nazis fizeram aos homossexuais. Muitas pessoas não sabem mas o holocausto dizimou, para além dos judeus, uma enorme quantidade de homossexuais (de artistas que nunca vimos a cidadãos anónimos). E depois da guerra, os que sobreviveram, continuaram a ser vistos como criminosos. É uma parte da história muito complexa e que consegui pôr em cena, com objectos e formas animadas, há uns anos.

Como complemento, o Sombras Andantes, é a resposta portuguesa. É sobre a perseguição do Estado Novo aos homossexuais. Nasce da frustração de não haver nada, ou quase nada, que te conte como eram essas vidas. Foi um espectáculo para onde investiguei muitas histórias, muitas que consegui aceder por memória oral, arquivos pessoais, da PJ, etc, e que recolhi para um texto que também mostra a influência da medicina e da Lei na construção da identidade homo, e na sua percepção exterior. Foi um espectáculo que apresentei no Museu do Aljube (e que repõe agora no verão de 2024) e que tinha por isso uma carga simbólica maior.

São três exemplos recentes de um trabalho de teatro e escrita mas também de pesquisa que tenho feito, de forma quase continuada, onde misturo a memória e o passado LGBTQ português. São textos de teatro e considero-os importantes porque o teatro é efémero, mas os textos ficam. Assim espero.

 

 

André Murraças nasceu em 1976. É licenciado em Realização Plástica do Espectáculo, pela Escola Superior de Teatro e Cinema, e acabou com distinção o Master of Arts in Scenography, da Hogeschool voor de Kunsten, em Utrecht, na Holanda. Teve ainda formação com Simon Stephens, Jorge Silva Melo, David Harrower, William Forsythe, Thomas Lehmen, Jan Ritsema e Rebecca Schneider.
Depois de cinco anos como redactor publicitário (com passagem por agências como a BBDO, TBWA ou EURO RSCG), iniciou um percurso como guionista de televisão, integrando a escrita das telenovelas Mar de Paixão e Rosa Fogo, esta nomeada para um Emmy.
Paralelamente começou actividade como assessor de comunicação para as associações culturais Canário Bonacheirão e Um Marido Ideal.
Foi encenador, dramaturgo, cenógrafo e intérprete de Sombras Andantes, Fronteiras, O Triângulo Cor-de-Rosa, O Criado, Fantasmas, Santos e Pecadores, Teatro Noir, Sex Zombie – a vida de Veronica Lake, Um Passeio, Hollywood, One Night Only – Uma rádio-conferência, Um Marido Ideal, Louis Lingg, Pour Homme, Swingers, As Peças Amorosas e As Palavras São o Meu Negócio.
Encenou, adaptou e cenografou as peças Antígona (de Sófocles) A Confissão de Lúcio (de Mário de Sá-Carneiro), Um Número (de Carol Churchill). Encenou, escreveu e cenografou as peças Cabaret Repórter X, Espectáculo Guiado, Império, Coro, 50 – Orlando, Ouve; Os Pássaros, Cândida – uma história portuguesa, Três Homens Sós, Film Noir, Os Inconvenientes, CinemaScope. É ainda autor do texto O Espelho do Narciso Gordo, prémio de edição do Clube Português de Artes e Ideias.
Em 2023 ganhou a bolsa literária para teatro da DGLAB e foi o vencedor da III Bolsa de Residência Literária em Madrid.
As suas peças de teatro principais estão editadas pela Cotovia/Artistas Unidos, na colecção Livrinhos de Teatro.
Esteve presente nos Chantiers de L’Europe, em Paris, com o texto Império, apresentado no Théâtre de la Ville. No cinema, foi dirigido por António da Cunha Telles e João Pedro Rodrigues.
Como cenógrafo trabalhou com os encenadores Miguel Loureiro em BOOM!, de Tennessee Williams, e Flávio Gil nas revistas à portuguesa Paródia Nacional e Parabéns, Parque Mayer! – a revista centenária do Teatro Maria Vitória e do Parque Mayer.
Ganhou por três vezes o prémio O Teatro na Década, do CPAI, e representou Portugal, por duas vezes, na Bienal de Jovens Criadores da Europa e Mediterrâneo, nas áreas de Teatro e de Literatura.
Tem diversas peças e contos publicados e colabora com revistas e jornais. Foi autor do programa O Rapaz do Calendário, na Rádio Radar.
Realizou a curta-metragem O Berloque Vermelho, que adapta o conto de António José da Silva Pinto. É autor e realizador das webseries Desabafos e Barba Rija. Criou o Queerquivo, um novo Arquivo LGBT Português, em formato online e livro.
A revista Mini Internacional considerou-o um dos mais relevantes autores da sua geração.