À Conversa sobre Livros com Bruno Leão

A leitura é, provavelmente, uma outra maneira de estar num lugar, escreveu o Nobel da literatura portuguesa, José Saramago.

Fonte inesgotável de conhecimento e prazer,  poderosa ferramenta de influência e transformação política, a leitura e a liberdade intelectual chegam até a ser censuradas por regimes repressivos, ditatoriais e totalitaristas, levando a que a informação, o espírito crítico sejam negados a grande parte das pessoas. 

Em pleno século XXI, assistimos cada vez mais a discursos de ódio, à propagação do medo e de conteúdos de desinformativos quanto a questões de género e sexualidade. Na Europa, EUA, Brasil e um pouco por todo o mundo, assiste-se à criação de campanhas de proibição de livros de temática LGBTQIA+. Com base em justificações de “promoção da homossexualidade” ou da “propaganda da ideologia de género”, grupos ideológicos conservadores mostram atentar a autodeterminação, a liberdade de expressão, a autodescoberta e visibilidade das experiências de pessoas LGBTQIA+.

Recordando a célebre frase de Oscar Wilde, preso numa altura em que a homossexualidade era considerada como vício e decadência, diria: “Não existem livros morais ou imorais. Os livros ou são bem escritos ou não.”

Reconhecendo a importância da leitura e da educação para as temáticas de igualdade e não discriminação, pretendemos conhecer as estantes Queer e Feministas de algumas personalidades portuguesas. Nesta conversa estivemos com Bruno Leão, autor das YA Por Fim em Silêncio e Apartamento em Crise.

Como começaste a escrever ficção e quando percebeste que querias publicar?

Comecei a escrever ficção aos 15 anos e, desde essa altura, soube que queria ser escritor profissional. Na altura parecia só mais um sonho maluco de um pré-adolescente, algo que eventualmente ia passar — mas não passou. Pelo contrário, com o tempo fui escrevendo novos manuscritos já com a intenção clara de publicar. Um desses textos acabou por servir como carta de apresentação ao meu editor atual. Apesar de ele não ter gostado particularmente da história em si, viu potencial na minha escrita e quis saber em que é que eu estava a trabalhar naquele momento. E foi aí que nasceu Por Fim em Silêncio e a minha atual carreira.

O que te leva a escrever sobre personagens queer com tanta intensidade e vulnerabilidade?

Escrevo personagens queer com tanta intensidade e vulnerabilidade porque é o que faz sentido para mim enquanto autor jovem e queer — e também para o público a quem me dirijo. Nós, jovens, sentimos tudo à flor da pele. Estamos constantemente a descobrir quem somos, a tentar encontrar o nosso lugar no mundo e a perceber o que queremos para o futuro. Cada pequena escolha parece decisiva, quase definitiva. E quando essa descoberta acontece num mundo onde nem sempre sentimos que pertencemos por completo, tudo se torna ainda mais intenso. Escrever com essa carga emocional é, para mim, uma forma de representar essa realidade de forma honesta e próxima.

Que autores ou obras te marcaram mais enquanto leitor e escritor?

Revejo-me muito no trabalho de alguns autores, como o Dustin Thao, a Laura Steven e o Pedro Rhuas — há uma sensibilidade nas histórias deles com a qual me identifico bastante. Gosto especialmente de livros comerciais que me fazem sentir tudo e mais um par de botas, e nesse campo sou grande fã da Ali Hazelwood e da Tessa Bailey. Apesar de escreverem romances adultos, têm uma energia emocional e um ritmo viciante que é exatamente o tipo de experiência que procuro enquanto leitor… e que tento também criar enquanto escritor. Gosto ainda de intercalar com fantasias YA, como Ascensão das Trevas, da C.S. Pacat, que me lembram o poder de escapar para outros mundos sem nunca perder de vista as emoções humanas.

Como percebes o lugar da literatura queer em Portugal hoje?

A literatura queer em Portugal está claramente em desenvolvimento e crescimento — tanto cá como no resto do mundo. A nova geração de leitores tem uma visão mais aberta e inclusiva sobre o que é a sociedade e quem faz parte dela, e isso inclui naturalmente as pessoas queer. Com essa mudança de mentalidade, os livros queer começam a ter mais espaço, mais visibilidade e a gerar mais conversa. Os meus livros são a prova de que há interesse, público e vontade de ler histórias que representem diferentes realidades, com autenticidade e emoção.

O que mais gostarias de ver na literatura LGBTQIA+ dos próximos anos?

Gostava de ver mais diversidade na literatura LGBTQIA+, não só em termos de representatividade, mas também na forma como as histórias são contadas. Que se explorem géneros literários distintos — da ficção científica à fantasia, do thriller ao realismo mágico — e que se arrisque mais em estruturas narrativas experimentais. A literatura queer não precisa estar confinada a determinados estilos ou públicos. Já demos passos importantes, especialmente com o crescimento do YA com personagens queer, mas acredito que o futuro passa por integrar essas vozes em todas as “bolhas” literárias. Que ser queer possa ser parte da história, sem ser sempre o centro do conflito.

Que projetos tens em mente para o futuro? Podemos esperar um novo livro em breve?

Anunciei há poucos dias um novo conto passado no Universo do Apartamento em Crise, que será lançado gratuitamente e online no dia 4 de julho. Nele, mergulho no passado do Fred, uma das personagens secundárias do livro, explorando uma faceta mais íntima e reveladora da sua história. Quanto a novos livros, trabalho com o objetivo de lançar sempre algo novo todos os anos — por isso, podem esperar surpresas para o próximo ano. Há muita coisa a ser preparada nos bastidores!

Para quem lê os teus livros e se reconhece neles — o que gostarias de lhes dizer?

Gostava de lhes dizer que fico profundamente feliz por poder fazer parte das leituras que os acompanham ao longo do ano. Especialmente porque, quando eu cresci, não tinha acesso ao mesmo nível de representatividade nos livros — e sei o quanto isso faz diferença. Vivemos, espero eu, uma fase temporariamente difícil, em que tudo aquilo que represento e escrevo parece estar constantemente a ser posto à prova. Por isso, ver alguém a reconhecer-se nas minhas histórias é mais do que gratificante — é uma forma de resistência e de esperança partilhada. No fundo, obrigado por me deixarem ser autor!

Bruno Leão vive em Lisboa, escreve livros queer YA e ficou conhecido na Internet por partilhar a sua vida e as suas leituras. Gosta de dar mergulhos espontâneos no mar e de tomar banhos de água fria.

Por Fim em Silêncio foi o seu bestseller de estreia, seguido agora por Apartamento em Crise. Podes saber mais sobre ele em: @brunoleaoautor

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