A leitura é, provavelmente, uma outra maneira de estar num lugar, escreveu o Nobel da literatura portuguesa, José Saramago.
Fonte inesgotável de conhecimento e prazer, poderosa ferramenta de influência e transformação política, a leitura e a liberdade intelectual chegam até a ser censuradas por regimes repressivos, ditatoriais e totalitaristas, levando a que a informação, o espírito crítico sejam negados a grande parte das pessoas.
Em pleno século XXI, assistimos cada vez mais a discursos de ódio, à propagação do medo e de conteúdos de desinformativos quanto a questões de género e sexualidade. Na Europa, EUA, Brasil e um pouco por todo o mundo, assiste-se à criação de campanhas de proibição de livros de temática LGBTQIA+. Com base em justificações de “promoção da homossexualidade” ou da “propaganda da ideologia de género”, grupos ideológicos conservadores mostram atentar a autodeterminação, a liberdade de expressão, a autodescoberta e visibilidade das experiências de pessoas LGBTQIA+.
Recordando a célebre frase de Oscar Wilde, preso numa altura em que a homossexualidade era considerada como vício e decadência, diria: “Não existem livros morais ou imorais. Os livros ou são bem escritos ou não.”
Reconhecendo a importância da leitura e da educação para as temáticas de igualdade e não discriminação, pretendemos conhecer as estantes Queer e Feministas de algumas personalidades portuguesas. Nesta conversa estivemos com Felipe Castro, autor do livro O perigo das vírgulas malpostas.
O título O perigo das vírgulas malpostas é delicioso — provoca e ironiza. Como nasceu esse título e o que ele revela sobre a tua visão da linguagem e do desejo?
Acredito que o embrião desse título está no meu livro de poesia (Multi-versos Aqu’ástricos) publicado em 2022. Foi um livro onde eu brinquei muito com as pontuações, de deixá-las em lugares mais “transgressores” do ponto de vista gramatical. Pensei, também, na questão gráfica completamente fálica da vírgula e criei um certo fascínio (quase obsessão) de ver os sentidos serem
trocados com a sua diferente disposição nos versos. Assim, quando fui criar este novo livro, já vinha com isso na minha escrita. O que eu fiz foi refletir essa mesma lógica no tema central, a questão queer e observei que havia esse efeito de silêncio (nos corpos e vivências) semelhante à pausa que fazemos com o uso das vírgulas. Então, escrevi o conto “cura” e o nome meio que surgiu a minha frente. Assim que eu pronunciei esse título em voz alta, percebi que era isso. Um nome que, como vocês afirmam, provoca e ironiza. Chama a atenção e desperta a curiosidade.
Como vês o estado atual da literatura queer portuguesa? Ainda é uma literatura “à margem” ou já conquistou espaço no cânone?
Ainda há muito conservadorismo quando pensamos na literatura portuguesa, de maneira geral. Apesar disso, há um movimento de investigação na academia na busca de trazer à luz o que pode se ter perdido de literatura queer na história. Ressalto aqui o projecto (O museu fora do armário) de André Murraças com a revista “Marginália” que pretende “desmarginalizar” muitos autores e do influenciador literário, Filipe Heath, que escreveu a orelha do meu livro.
Quais autores e autoras te influenciaram — dentro e fora de Portugal — na construção da tua voz literária?
Quando eu penso na escrita de contos, não há outra, para mim, como a influência de Clarice Lispector e mais recentemente de Conceição Evaristo. Além delas, admiro a genialidade de Caio F. Abreu. Amo a poesia de Ocean Young, identifico-me com Duarte Drumond Braga e, claro, os clássicos James Baldwin, Álvaro de Campos e Mario de Sá-Carneiro.
Se pudesses escolher uma vírgula “malposta” na sociedade portuguesa atual — uma falha, um desvio necessário — qual seria?
Há uma vírgula muito perigosa na sociedade portuguesa que é a forma como ainda se lida com a questão da colonização, ainda há muito floreio e pouca reflexão crítica. E muito dos males de todas as outras formas de violência (racismo, género, sexualidade) que vemos hoje, possuem, de alguma forma, origem nesta lógica colonialista. Enquanto não houver uma revisão profunda do que realmente foi esta época na história, muitos dos problemas contemporáneos continuarão a ser
perpetuados.
Que conselho darias a jovens autores queer que estão a começar a escrever em
Portugal hoje?
Partilhem os seus textos com o mundo, não tenham vergonha da forma como escrevem ou do conteúdo desses escritos. Não tenham vergonha das vivências que só uma pessoa queer teria porque são elas que vão empoderar as nossas vozes e afirmar a nossa existência. Procurem eventos com microfone aberto. Há sempre uma luz que se acende e que acende outro e outro. É preciso que mais vozes surjam. E claro, leiam muito literatura queer.
Há novos projetos literários a caminho?
Estou sempre a escrever textos novos, nunca parei. Tinha um livro de poesia pronto na gaveta (ainda sem previsão) e outras ideias para alguns outros. Mas por enquanto, tenho trabalhado, mais intensamente, na divulgação deste livro em paralelo com a performance póetica “Resistir é sambar na cara do cansaço e da tragédia” que é uma performance com alguns textos deste último livro e outros poemas não publicados que trata sobre a resistência queer. Além disso, gosto muito, também, da criação de video-poemas, e sempre que consigo, publico alguns na minha conta instagram @felipecastroverso
Felipe Castro é artista da palavra, licenciado em letras, mestre em literatura e professor de português no ensino público. Tem dois livros publicados de poesia, um de contos e participa ativamente de eventos de poetry slam, sendo o vice-campeão do slam nacional de Portugal (2025), além de performar em outros eventos de poesia falada. Com a perfomance “Resistir é sambar na cara do cansaço e da tragédia – Re(x)isto” ganhou uma menção honrosa no concurso “Declamar Abril” realizado em 2024 pela revista Gerador.