À Conversa sobre Livros com Filipe Heath

A leitura é, provavelmente, uma outra maneira de estar num lugar, escreveu o Nobel da literatura portuguesa, José Saramago.

Fonte inesgotável de conhecimento e prazer,  poderosa ferramenta de influência e transformação política, a leitura e a liberdade intelectual chegam até a ser censuradas por regimes repressivos, ditatoriais e totalitaristas, levando a que a informação, o espírito crítico sejam negados a grande parte das pessoas. 

Em pleno século XXI, assistimos cada vez mais a discursos de ódio, à propagação do medo e de conteúdos de desinformativos quanto a questões de género e sexualidade. Na Europa, EUA, Brasil e um pouco por todo o mundo, assiste-se à criação de campanhas de proibição de livros de temática LGBTQIA+. Com base em justificações de “promoção da homossexualidade” ou da “propaganda da ideologia de género”, grupos ideológicos conservadores mostram atentar a autodeterminação, a liberdade de expressão, a autodescoberta e visibilidade das experiências de pessoas LGBTQIA+.

Recordando a célebre frase de Oscar Wilde, preso numa altura em que a homossexualidade era considerada como vício e decadência, diria: “Não existem livros morais ou imorais. Os livros ou são bem escritos ou não.”

Reconhecendo a importância da leitura e da educação para as temáticas de igualdade e não discriminação, pretendemos conhecer as estantes Queer e Feministas de algumas personalidades portuguesas. Nesta conversa, inserida no Mês do Orgulho LGBTQIA+, estivemos à conversa com Filipe Heath, editor, professor e criador de conteúdo literário. Falamos sobre a evolução da literatura queer em Portugal, os desafios que persistem no mercado livreiro LGBTQIA+ e o papel dos livros na promoção da representatividade, da inclusão e da transformação social.

Filipe, para quem ainda não conhece o teu trabalho, como surgiu a tua ligação à literatura e ao ativismo pela diversidade no mercado editorial? 

Obrigado pelo convite. Recordo-me vivamente da minha mãe a ler à beira-mar, foi esse o primeiro contacto com literatura. Lembro-me exatamente do dia no qual comprei o meu livro com o meu dinheiro, não com o objetivo de lê-lo, mas sim colocar uma folha branca em cima e copiar as ilustrações. O meu interesse pessoal intensificou-se com a Feira do Livro de Quarteira (saudades!), onde adquiri dezenas de títulos infantojuvenis. Quanto ao ativismo, com 13 anos aderi ao Twitter e segui uma página norte-americana (We Need Diverse Books) que dava destaque às mais variadas comunidades marginalizadas. Rapidamente percebi a urgência de lutar por um mercado literário mais inclusivo. A maior parte das pessoas que acompanhava era queer ou racializada, relacionei-me sempre com pessoas que estavam também nesta luta. 

Estamos a assinalar o Mês do Orgulho LGBTQIA+. Que papel pode a literatura desempenhar na afirmação das identidades e na promoção da inclusão?

A literatura permite vermo-nos representados na mesma. O meu processo de aceitação enquanto pessoa queer foi muito mais leve à medida que lia mais livros queer. Lembro-me de ter uma experiência muito semelhante a um protagonista devido à não aceitação da orientação sexual por parte dos meus pais. Este livro em específico (More Happy Than Not de Adam Silvera) ajudou-me a perceber que não era o fim do mundo e havia sim esperança para aquele jovem inseguro. Os livros são a ferramenta mais poderosa de empatia; temos acesso a uma multiplicidade de experiências que não vivenciamos sem estas histórias. 

Num contexto internacional em que se observam tentativas de censura e proibição de livros LGBTQIA+, qual deve ser a resposta do setor editorial?

O setor editorial deve manter-se forte e continuar a publicar estas vozes queer e marginalizadas. Já se publica tão pouco, publicar menos seria ainda mais problemático. É muito importante continuar a investir na pluralidade de vozes queer, não apenas homens brancos gays. O mercado editorial deve também criar associações ou alianças para que a luta seja mais forte. No mercado em Portugal temos apenas a RELI para as livrarias independentes, a competitividade é imensa. Não me parece que a APEL esteja preocupada com a diversidade do mercado literário. Seriam importantes mais campanhas não apenas durante o mês do Orgulho. 

Como caracterizas atualmente o mercado livreiro LGBTQIA+ em Portugal?

Parece-me que o progresso está, efetivamente, nas editoras independentes. Sou suspeito mas colaborei nos últimos dois anos com a Vírgula d’Interrogação e neste período já publicaram vários livros com diversidade religiosa, racial e de orientação sexual. É raro uma editora neste curto espaço de tempo publicar vozes dissonantes. A missão é muito evidente. Quanto aos grandes grupos, que têm muito mais possibilidades financeiras, não existe grande interesse em travar esta luta, sinto que nem percebem o impacto negativo que a publicação exclusiva de autores heteronormativos tem. O importante será apoiar as editoras que estão a publicar vozes queer em vez de exigir aos grandes grupos desinteressados que publiquem estas mesmas obras, até porque muitas das vezes não respeitam as identidades dos autores que publicam. 

Que obstáculos continuam a enfrentar autores e autoras LGBTQIA+ em Portugal?

Relacionada diretamente com a resposta anterior, existe uma tokenização que vai de mãos dados com a falta de divulgação. Publicitar os autores trans só porque estamos no mês do Orgulho não é suficiente, os mesmos precisam de uma divulgação mais equitativa. Um autor queer não pode representar toda uma comunidade, é essencial a multiplicidade de vozes dissonantes. 

Que autores ou autoras LGBTQIA+ portugueses consideras fundamentais para compreender a realidade contemporânea?

Maria João Vaz e Rute Bianca são duas deusas trans que nunca deixarei de recomendar. Nunca li António Fernando Cascais, mas vários amigos queer apreciam o seu trabalho. Li recentemente Club Commons: Moving Bodies to Grow Movements in Queer Nightlife que aborda a importância de organizar comunidades para uma luta mais forte. Apesar de estar no contexto dos espaços noturnos, aplica-se facilmente ao mercado literário e à importância de falar abertamente sobre estas questões. 

Se pudesses recomendar três livros para celebrar o Mês do Orgulho, quais seriam e porquê?

The Ayatollah’s Gaze: A Memoir of the Forbidden and the Fabulous pois conheci melhor a realidade queer no Irão, onde se pode ser assassinado por existir; Love in Exile que aborda as relações amorosas enquanto mulher trans e Sempre Estivemos Aqui, um livro de memórias queer e muçulmanas. 

Olhando para o percurso que tens feito na defesa de um mercado literário mais inclusivo, o que te dá mais esperança quando pensas no futuro da literatura queer em Portugal?

O que me dá mais esperança é perceber que existem leitores muito dedicados a estas questões. Quando realizei no ano passado uma tour por Portugal com a Elga Fontes a conversar sobre literatura queer, tivemos salas cheias de pessoas que estavam dispostas a continuar a lutar, apesar do cansaço que remar contra a maré. São os leitores que compõem o mercado e apesar de a literatura queer não ser mainstream (e ajudaria em termos de vendas para publicação de mais livros queer), quem percebe a importância, apoia com garra.

 

Filipe Heath é editor, professor e criador de conteúdo literário. Luta por um mercado literário mais inclusivo desde 2013. Dinamiza um projeto de apoio a livrarias independentes e #LerOMundo, onde se propõe a ler um livro por cada país ou região do mundo. Já colaborou com o Centro Cultural de Belém, Festival 5L, Festival Utopia e Feira do Livro de Lisboa e esteve na Antena 1, Timeout, Observador, entre outros.