A leitura é, provavelmente, uma outra maneira de estar num lugar, escreveu o Nobel da literatura portuguesa, José Saramago.
Fonte inesgotável de conhecimento e prazer, poderosa ferramenta de influência e transformação política, a leitura e a liberdade intelectual chegam até a ser censuradas por regimes repressivos, ditatoriais e totalitaristas, levando a que a informação, o espírito crítico sejam negados a grande parte das pessoas.
Em pleno século XXI, assistimos cada vez mais a discursos de ódio, à propagação do medo e de conteúdos de desinformativos quanto a questões de género e sexualidade. Na Europa, EUA, Brasil e um pouco por todo o mundo, assiste-se à criação de campanhas de proibição de livros de temática LGBTQIA+. Com base em justificações de “promoção da homossexualidade” ou da “propaganda da ideologia de género”, grupos ideológicos conservadores mostram atentar a autodeterminação, a liberdade de expressão, a autodescoberta e visibilidade das experiências de pessoas LGBTQIA+.
Recordando a célebre frase de Oscar Wilde, preso numa altura em que a homossexualidade era considerada como vício e decadência, diria: “Não existem livros morais ou imorais. Os livros ou são bem escritos ou não.”
Reconhecendo a importância da leitura e da educação para as temáticas de igualdade e não discriminação, pretendemos conhecer as estantes Queer e Feministas de algumas personalidades portuguesas. De forma a partilhar novos mundos que os livros encerram, questionamos:
Existe algum livro que consideres ter marcado o teu percurso ativista e/ou profissional?
Sou acima de tudo um péssimo leitor, seja, os livros são poucos os que fazem parte do meu percurso, raramente leio, raramente leio um livro até ao fim, e sou capaz de estar a ler três ou quatro ao mesmo tempo. Podia responder agora que li livros extraordinários que me marcaram e ou influenciaram o meu percurso como ativista, mas seria hipocrisia para não dizer mentira, mas de forma algo enviesada os livros que li total ou parcialmente tiveram peso na minha forma de estar no ativismo.
Um dos livros que mais me marcou foi “A Terceira Visão” de Lobsang Rampa, e dirão que tem isso a ver com ativismo, eu diria muito, persistência, certeza do que queremos, saber observar, está tudo neste brilhante livro.
Tem ainda outra particularidade, por vezes os livros perseguem-me, tipo, olhas uma vez, achas que não, mas depois o livro aparece nos sítios todos, e aconteceu isso com “A Cabana” de Wm. Paul Young, quem me conhece sabe que posso ser muito bruto, mas ao mesmo tempo aquilo que brejeiramente é chamado de “pito chorão”, (a minha amiga Fabíola Cardoso Neto, disse um dia que o bom e menos bom de mim vem do mesmo sitio…) as histórias e as vivências das pessoas comovem-me, este livro é isso, a espiritualidade, o amor, o entenderes-te para lá de ti mesmo.
Um dos que marcou definitivamente foi “Doida não e não” de Manuela Gonzaga, a história de amor e luta por esse amor de Maria Adelaide Coelho da Cunha, dona do DN, que casada se apaixona e foge com o motorista. A descrição da sua vida mostra o machismo, a misoginia, o controle de todas as coisas na mão dos homens, conservadores, castradores, carcereiros, um livro que nos ensina a que NUNCA nos sintamos como vencidos, porque amanhã é outro dia.
Vês nada de Karl Marx, ou Simone de Beauvoir, esse lado do meu cultivo como pessoa atenta e ativista, está nas mãos da produção documental, sou uma esponja seca com documentários sobre os mais variados aspetos da sociedade.
Qual o/a autor/a com que sentes te identificar e que mais revisitas?
Como disse acima sou um péssimo leitor, contudo recentemente estou a experimentar a faculdade, primeiro na área da sociologia agora a criminologia, e por isso por razão dessa minha formação, Marx e Engles são procuras frequentes, e mais atual Bourdieu, e fica até estranho por vezes estar a ler principalmente Marx e perceber que a história se repete, porque o ser humano se abstrai da história da humanidade e insiste em repetir os mesmos erros uma e outra vez, diria até que estamos perto se não já envolvidos numa sequela do vivido, não tarda temos um ambiente fascista servido à refeição, TODOS OS DIAS.
Neste momento tens alguma leitura que te acompanhe e que queiras recomendar aos nossos leitores?
É bem fresquinho o que tenho de momento na cabeceira e que sem dúvida aconselho, mesmo só tendo ainda passado os olhos, o livro de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, “1983” uma breve mas intensa retrospectiva do movimento GLBT+ em Portugal, muito focado na questão da luta contra o VIH/Sida, e da questão Trans, e muito geograficamente situado em Lisboa, mas que não deixa de ser uma formação destas novas gerações de que as coisas não caem do céu, houve (há) muita luta, perderam-se vidas e vidas foram perdidas na luta. Sem dúvida um livro a não perder para quem se quer entender como LGBT+.



Maria Adelaide Coelho da Cunha

No ano em que celebramos os 50 anos do 25 de abril de 1974 assistimos ao fortalecimento da extrema-direita e aos discursos “anti-género” a marcar o panorama político português.
Enquanto ativista pelos direitos LGBT no país, administrador do site PortugalGay.pt, que ferramentas achas serem possíveis para contrariar a ameaça e/ou retrocesso de direitos de género e sexualidade no país?
Este retrocesso dá-se pelo que acima referi, as pessoas estão mais interessadas nos memes, nos big-brother, e nos diz que disse que procurar se informar, os livros são um excelente meio, afinal nunca ficam sem bateria, mas temos documentários vários também que podem ajudar na formação de uma consciência pessoal e coletiva mais atenta e pró-ativa. Mas o “pecado” maior está nos livros das escolas, temos uma formação histórica muito mais preocupada em mostrar o quanto fomos “bons” enquanto conquistadores, em falar de reis e rainhas, do que falar da história contemporânea, do analfabetismo, da fome, da repressão, de toda uma era fascista, ditatorial, e depois a revolução e as conquistas precárias obtidas.
Bom não esquecer que o 25 de abril não foi para LGBT’s e profissionais do sexo, foi dito e foi absorvido durante anos, só 27 anos depois as pessoas do mesmo sexo viram de alguma forma as suas relações intimas plasmadas na lei “União de Facto” e mesmo esta com imensas lacunas. Por isso os jovens de hoje, e alguns menos jovens parecem não perceber a importância da democracia, mas mais que isso o significado da LIBERDADE, e embarcam nos discursos populistas das extremas, porque não sabem, e como não sabem, não valorizam o que têm.
Precisamos no imediato de esclarecer, não fomos ou somos acusados de haver um lobby gay, então usemos a fama no sentido de termos espaços de fala nos meios de comunicação social, nas escolas e universidades, esclarecendo que a flor da LIBERDADE é frágil e que se não a cuidarmos a todo o momento podemos acordar “molhados”, amordaçados, perseguidos, os primeiros cinco episódios da série “The Handmaid’s” explica bem o que pode acontecer se não encararmos a luta.

Alfredo Cunha
Precisamos contar como aconteceu uma 2ª Guerra Mundial, precisamos esclarecer que foi numa crise, num desespero que surgiu um vendedor da banha da cobra, numa ventura de conquistar atenções encontrou um bode expiatório no caso os judeus, no nosso caso os LGBT+ e uma alegada agenda de ideologia de género, e que é nesses processos que acabamos perdendo o chão que temos, e não falo de LGBT’s, falo de pessoas migrantes, de negros, dos ciganos, de pessoas de baixa renda, precisamos explicar que na vitória do vendedor da banha da cobra, o que está mal vai ficar bem pior, e quem está bem, vai ficar bem melhor, caíram apenas aqueles que fizerem concorrência ao poder estabelecido.
A longo prazo precisamos alterar os currículos escolares, reis e rainhas, conquistas e escravatura é para quem quer seguir história, para quem está no ciclo e no secundária precisa perceber porque tem um ensino “tendencialmente” gratuito, porque é que as mulheres podem ir para o secundário e a universidade, e concorrer em pé de “igualdade” para ser um CO de uma empresa, porque é que elas estão sentadas e tem voz no parlamento, porque há hoje leis que criminalizam a violência doméstica.
Os manuais precisam de contar a 2ª Guerra Mundial, de onde veio, como veio, porque veio, precisa contar como vivíamos, e o que foi o 25 de abril, que conquistas obtivemos no imediato e das falhas, das gaps, que essa liberdade teve e tem, precisamos de instruir que não há LIBERDADE enquanto houver medo, precisamos ensinar os nossos jovens, e pelos visto também os menos jovens, que este “jardim” em que vivemos é imperfeito, e que devido também à sua imperfeição está a dar espaço para que a história se repita, para que as ervas daninhas das extremas penetrem esse mesmo jardim e o percamos na totalidade.
Basicamente é esclarecer, esclarecer, esclarecer…formar e formar, para reduzir a desvalorização do que temos, para tornar urgente a luta por melhor, e dessa forma reduzimos, a meu ver, a iliteracia vigente que é por um lado resultado de uma educação pobre, e de uma herança fascistas, e de um modernismo onde interessa mais os filtros para pareceres um jovem do que mostrar as rugas da tua realidade.
João Paulo, nascido na agora cidade de Matosinhos em 1968, cedo começou a fazer ativismo, mesmo sem saber que o estava a fazer. Mas é em 1995 que inicia o caminho que hoje o distingue, quando se torna o sócio nº45 da Ilga Portugal, de quem se desvincula anos depois. É logo no ano seguinte que com o companheiro, amigo, amante e desde 2010 marido, funda o primeiro e único por anos, portal dedicado ás pessoas LGBT+, o PortugalGay.pt. Esteve envolvido como co-organizador da Marcha do Orgulho de Lisboa entre o primeiro e o seu quinto ano, e foi co-organizador da Marcha do Orgulho LGBT+ do Porto desde o inicio em 2006 até 2018. Pelo caminho inúmeras palestras em diferentes ambientes, e apresenta pela primeira vez em Portugal o tema da 3ª idade LGBT+ na Conferencia Afro-Luso-Brasileira 2004, com a fala “O EU jovem homossexual”. Ainda em 2001, quando a Capital Europeia da Cultura, organiza com o apoio das casas LGBT+ da Invicta o primeiro evento LGBT+ da cidade o PORTO PRIDE que tem a sua ultima edição em 2012, tendo nesses onze anos doado pouco mais de 30mil euros primeiro à Liga de Amigos do hospital Joaquim Urbano depois á Associação SOL. Em 2019 ingressa como um “late dinner” do ensino no curso de Sociologia da Faculdade de Letras da Univ. Porto, estando neste momento a frequentar o Mestrado em Criminologia na Faculdade de Direito da Univ do Porto. Neste percurso de já quase trinta anos de ativismo, tem sido figura presente em quase todas as Marchas do país, só ainda não foi ao Algarve e ás ilhas.