À Conversa sobre Livros com Margarida Fonseca Santos

A leitura é, provavelmente, uma outra maneira de estar num lugar, escreveu o Nobel da literatura portuguesa, José Saramago.

Fonte inesgotável de conhecimento e prazer,  poderosa ferramenta de influência e transformação política, a leitura e a liberdade intelectual chegam até a ser censuradas por regimes repressivos, ditatoriais e totalitaristas, levando a que a informação, o espírito crítico sejam negados a grande parte das pessoas. 

Em pleno século XXI, assistimos cada vez mais a discursos de ódio, à propagação do medo e de conteúdos de desinformativos quanto a questões de género e sexualidade. Na Europa, EUA, Brasil e um pouco por todo o mundo, assiste-se à criação de campanhas de proibição de livros de temática LGBTQIA+. Com base em justificações de “promoção da homossexualidade” ou da “propaganda da ideologia de género”, grupos ideológicos conservadores mostram atentar a autodeterminação, a liberdade de expressão, a autodescoberta e visibilidade das experiências de pessoas LGBTQIA+.

Recordando a célebre frase de Oscar Wilde, preso numa altura em que a homossexualidade era considerada como vício e decadência, diria: “Não existem livros morais ou imorais. Os livros ou são bem escritos ou não.”

Reconhecendo a importância da leitura e da educação para as temáticas de igualdade e não discriminação, pretendemos conhecer as estantes Queer e Feministas de algumas personalidades portuguesas. Nesta conversa tivemos com Margarida Fonseca Santos, professora de formação musical e pedagogia, escritora, que partilha connosco um pouco sobre o seu percurso artístico e as suas sugestões de leituras:

O que a motivou a criar a coleção «A Escolha É Minha», que entre outros
temas aborda a violência no namoro; o bullying; a amizade; as dinâmicas
familiares a orientação sexual?

Este era um projeto que trazia dentro de mim há bastante tempo, e que foi
posto em marcha pela 20|20, agora Penguin. Não era fácil convencer editores
a trabalhar os assuntos-problema dos jovens. Os temas andavam comigo, ao
observar os jovens nos encontros de autor e de escrita. Este em particular,
«Não me magoas mais», habitava os meus pensamentos há mais de dois
anos. Senti que era urgente escrever sobre este tema. Na realidade, não
escolhemos sempre o que nos acontece, mas podemos escolher qual a nossa
reação ao que nos acontece. Queria livros abertos, que façam pensar
criticamente, conhecer, respeitar e saber ajudar. Porque também vemos
acontecer, ao nosso lado, estas situações, e espero que estes livros
sensibilizem os jovens para compreenderem, respeitarem e, no memento certo,
adjurarem quem sofre, sem julgamentos.

Pode-nos falar um pouco mais sobre a sua última obra: Não Me Magoas
Mais? O que falta fazer para combater a violência no namoro em
Portugal?

Creio que este assunto nos choca, sobretudo porque já acontece em jovens de
turmas de 3.º ciclo. É urgente pensar e saber sobre este tema. Falar sobre o
passado de quem agride, que sente como natural a violência na relação e a
copia, levando a que se eternize o padrão. Mas também falta falar sobre o perfil
da vítima e da mudança que ocorre na sua mente, quando começa a acreditar
que tem culpa, que merece a violência, que não merece ajuda, ou tem medo de
mudar. Precisamos de saber lidar com estes casos, pois as pessoas por vezes
fogem, isolando-se. É preciso respeito, tato, tempo, não criando ainda mais
pressão, e, estando por perto, apoiar quem nos pede ajuda. Neste livro, os
amigos seguem uma estratégia que se torna eficaz: dão informação, mostram-
se disponíveis para apoiar e ajudar, e agem quando a vítima quer sair da
relação violenta. Dito isto, e sabendo de muitas organizações que fornecem
informação e ajuda, falta que na escola essas informações estejam visíveis,
acessíveis, e prontas a acionar os mecanismos de defesa.

No ano que celebramos os 50 anos do 25 de abril, o que considera ainda
faltar cumprir para o reconhecimento da diversidade da orientação
sexual, identidade e expressão de género e características sexuais de
cada pessoa em Portugal?

Tenho esta crença, da qual não abdico: falta dar força à palavra Respeito. Não
basta estar apenas no papel e nas intenções. As escolas têm de estar aptas a
fazer valer o respeito pela pessoa inteira. A informação leva ao respeito, ao não
julgamento.

Tem algum livro/autor com que mais se identifique e retorne?

É difícil escolher, mas houve obras de autores que me (des)construíram e
mudaram enquanto escritora: «As crianças invisíveis», de Patrícia Reis;
«Manual dos inquisidores», de António Lobo Antunes«O vento assobiando
nas gruas», de Lídia Jorge
; os contos de Maria Judite de Carvalho.

Que leitura nos pode recomendar?

«As longas noites de Caxias», de Ana Cristina Silva, pela pertinência do tema
nos 50 anos do 25 de abril, e «Crianças Invisíveis», de Patrícia Reis.

Margarida Fonseca Santos foi professora de formação musical e pedagogia durante muitos anos. Publicou o seu primeiro livro em 1995, e assim foi crescendo o interesse pela escrita e pelo treino da mente. Tem publicado sobretudo na área infantojuvenil, estando muitos livros nas listas do Plano Nacional de Leitura. A sua coleção para jovens «A Escolha É Minha», tem como lema: «Nem sempre podemos escolher o que acontece na nossa vida, mas podemos sempre escolher como vamos reagir ao que acontece!», e tem provocado reações muito comoventes.
Dá formação na área da escrita e do treino mental, e é no projeto Re-Word-it que encontra a interligação deste percurso. Publicou, em 2019, o livro de desafios de escrita «Razões para escreve». O ano de 2024 marca também a reedição do livro «De Nome, Esperança», um livro sobre a loucura e a difícil questão da (re)integração da pessoa com doença mental na sociedade.