À Conversa sobre Livros com Nuno Quintas

A leitura é, provavelmente, uma outra maneira de estar num lugar, escreveu o Nobel da literatura portuguesa, José Saramago.

Fonte inesgotável de conhecimento e prazer,  poderosa ferramenta de influência e transformação política, a leitura e a liberdade intelectual chegam até a ser censuradas por regimes repressivos, ditatoriais e totalitaristas, levando a que a informação, o espírito crítico sejam negados a grande parte das pessoas. 

Em pleno século XXI, assistimos cada vez mais a discursos de ódio, à propagação do medo e de conteúdos de desinformativos quanto a questões de género e sexualidade. Na Europa, EUA, Brasil e um pouco por todo o mundo, assiste-se à criação de campanhas de proibição de livros de temática LGBTQIA+. Com base em justificações de “promoção da homossexualidade” ou da “propaganda da ideologia de género”, grupos ideológicos conservadores mostram atentar a autodeterminação, a liberdade de expressão, a autodescoberta e visibilidade das experiências de pessoas LGBTQIA+.

Recordando a célebre frase de Oscar Wilde, preso numa altura em que a homossexualidade era considerada como vício e decadência, diria: “Não existem livros morais ou imorais. Os livros ou são bem escritos ou não.”

Reconhecendo a importância da leitura e da educação para as temáticas de igualdade e não discriminação, pretendemos conhecer as estantes Queer e Feministas de algumas personalidades portuguesas. Nesta conversa tivemos com o tradutor, revisor, consultor e formador em revisão, Nuno Quintas.

Como considera a reputação/valorização da carreira de tradutor em Portugal face ao que conhece da realidade internacional? Sabemos, no país, reconhecer o papel da tradução literária?

A carreira de tradução em Portugal não é assim tão diferente da dos outros países: financeiramente mal paga, pouco ou nenhum reconhecimento. O problema português é agravado pela pequeníssima dimensão do mercado, quando comparado com outros, e a pouca ou nula valorização do trabalho de tradução pelas editoras e pela generalidade do público. Em certa medida, os tradutores também são vítimas da sua excessiva introspecção e atomização. É um ofício exercido em casa por pessoas que são profissionais independentes, logo pouco dadas à exposição pública. Com o advento da inteligência artificial, não basta, contudo, pôr o nome de quem traduz na capa dos livros: é preciso convocar profissionais, debater a actividade, enaltecer um ofício que se deve manter criativo, enfim, humano, e que seja sempre demasiado humano.

Fale-nos mais do seu trabalho enquanto tradutor de nomes tão sonantes da literatura queer e feminista internacional como os que referimos anteriormente. Que desafios encontra em obras tão complexas como podem ser as de índole filosófica ou antropológica feminista? Como se revê nas obras que traduz?

Não há duas obras iguais: cada obra representa um desafio distinto. Em regra, diria que o desafio maior na tradução de obras contemporâneas é procurar um vocabulário muitas vezes ainda não totalmente fixado ou consagrado na tradição e na academia portuguesas. Sinto alguma responsabilidade nesse domínio, mas com a consciência plena de que a tradução corresponde a um acto circunstancial: é a polaróide de um período de trabalho. Acontece-me inúmeras vezes consultar obras que já traduzi e ponderar melhorias, afinações, reformulações integrais. No fundo, citando Beckett, querer «falhar outra vez» para «falhar melhor».

Não é importante rever-me ou não nas obras que traduzo. Quando inicio uma tradução, ela é para mim um cubo de Rubik linguístico por resolver, e nesse sentido, todas me apaixonam (umas mais que outras, decerto) enquanto tradutor, mesmo que não fosse leitor de todas. Assim, encaro a tradução como um exercício de representação e de empatia, próximo do que uma actriz fará com uma personagem de que não gosta. Não sou leitor de todas as obras que traduzi, mas traduzi-as a todas acabando por me apaixonar por elas, pelo desafio que representaram para mim em dado período.

Como considera o reconhecimento destas obras pelo mercado editorial português? E pelo público em geral?

Não sendo obviamente best-sellers, são obras que vão fazendo o seu caminho e têm os seus leitores. Não se destinam ao grande público — que hoje consome sobretudo uma não-ficção mais fácil e digestiva —, mas têm uma audiência mais ou menos fiel, e não exclusivamente académica.

Que obras lhe deram mais gozo traduzir? E mais dificuldade? E porquê?

A resposta parece demasiado fácil, mas penso sempre que a obra que mais gozo e dificuldade me deu traduzir foi a que acabei de entregar: o último quebra-cabeças linguístico que me ocupou semanas a fio.

Ainda assim, destacando algumas…

Pelo gozo, Um Lugar para Mungo (Young Mungo), de Douglas Stuart (Alfaguara). Tendo eu a mesma idade do protagonista (13 anos) em 1993, ano em que se passa a acção, revivi na Glasgow do livro a minha adolescência na Margem Sul, a descoberta da diferença, numa homossexualidade ainda por nomear, e a homofobia, ainda muito tácita, do Portugal dessa época. De certa maneira, resolvi a minha adolescência com esse livro.

Pela dificuldade, todas as de Judith Butler. Butler tem um estilo labiríntico, tantas vezes tortuoso, que, se traduzido à letra, resultaria no que consideraríamos uma má tradução. Nas suas traduções, aprendi muito a fazer concessões, por um lado, e a sacrificar-me (a mim e a Butler), por outro, em prol de quem queira ler estas obras em português.

Tem algum livro/autor com que mais se identifique?

O meu espectro de leituras é grande: vai de sermões a ficção científica. Tenho algumas obras dilectas, mas, quando aprecio alguém, tendo a querer ler tudo o que escreveu. No romance, à cabeça Henry James (quem me rodeia sabe bem da obsessão que tenho por ele), Agustina Bessa-Luís, Thomas Bernhard e Virginia Woolf. No sermão, Padre António Vieira (que é mesmo, mesmo para se ler). Na poesia, Adrienne Rich e Fiama Hasse Pais Brandão. Na ficção científica, William Gibson.

Que leitura tem em mãos neste momento?

Terminei ontem Fools (1992), de Pat Cadigan, clássico do ciberpunk. Gosto muito de ficção científica, género tão mal-amado no nosso país. Seria bom esquecermos as «lulas falantes no espaço sideral» (na definição parva de ficção científica que nos deu Margaret Atwood) e a Guerra das Estrelas. É mesmo na ficção científica que mais se joga e pensa o presente. Li este ano White Queen, de Gwyneth Jones, e descobri que, quando Judith Butler abriu as portas, já lá estava Jones.

Que leitura recomenda aos nossos leitores?

O Livro da Patrícia (2022, Ghost Editions), de David-Alexandre Guéniot. Não acredito que (sobre)vivi.

Tradutor, revisor, consultor e formador em revisão, Nuno Quintas compõe desde 2020, com Guilherme Pires e Madalena Caramona, o colectivo Oficina Caixa Alta. Traduziu obras de nomes como Judith Butler, Douglas Stuart, Colson Whitehead, Grada Kilomba, Brian Dillon e Eliot Weinberger. É mestre em Edição de Texto e licenciado em Línguas e Literaturas Modernas — Estudos Portugueses e Ingleses, na Universidade Nova de Lisboa.