À Conversa sobre Livros com Raquel Afonso

A leitura é, provavelmente, uma outra maneira de estar num lugar, escreveu o Nobel da literatura portuguesa, José Saramago.

Fonte inesgotável de conhecimento e prazer,  poderosa ferramenta de influência e transformação política, a leitura e a liberdade intelectual chegam até a ser censuradas por regimes repressivos, ditatoriais e totalitaristas, levando a que a informação, o espírito crítico sejam negados a grande parte das pessoas. 

Em pleno século XXI, assistimos cada vez mais a discursos de ódio, à propagação do medo e de conteúdos de desinformativos quanto a questões de género e sexualidade. Na Europa, EUA, Brasil e um pouco por todo o mundo, assiste-se à criação de campanhas de proibição de livros de temática LGBTQIA+. Com base em justificações de “promoção da homossexualidade” ou da “propaganda da ideologia de género”, grupos ideológicos conservadores mostram atentar a autodeterminação, a liberdade de expressão, a autodescoberta e visibilidade das experiências de pessoas LGBTQIA+.

Recordando a célebre frase de Oscar Wilde, preso numa altura em que a homossexualidade era considerada como vício e decadência, diria: “Não existem livros morais ou imorais. Os livros ou são bem escritos ou não.”

Reconhecendo a importância da leitura e da educação para as temáticas de igualdade e não discriminação, pretendemos conhecer as estantes Queer e Feministas de algumas personalidades portuguesasNesta conversa, inserida no Mês do Orgulho LGBTQIA+,  voltamos a falar com Raquel Afonso, doutorada em Estudos de género e mestre em Antropologia, autora de Homossexualidade e Resistência no Estado Novo (2019) e, mais recentemente, Memórias Dissidentes: Repressão e resistências quotidianas de homossexuais e lésbicas nas ditaduras ibéricas (2025).

O que te motivou a escrever Memórias Dissidentes. Repressão e Resistências Quotidianas de Homossexuais e Lésbicas nas Ditaduras Ibéricas? O que sentiste que ainda faltava contar sobre este período da história?

Este livro é a continuação de um trabalho desenvolvido anteriormente, durante o mestrado em Antropologia (e que resultou no livro Homossexualidade e Resistência no Estado Novo). Ao longo dessa dissertação, percebi que poderiam existir algumas semelhanças entre a ditadura portuguesa e a espanhola, o que deu origem a um conjunto de questões que delinearam a investigação. A repressão da homossexualidade e do lesbianismo era realizada da mesma forma nas duas ditaduras? Os quotidianos no franquismo seriam muito diferentes dos encontrados em Portugal? As pessoas tentaram resistir da mesma forma, através da ocultação e dissimulação da sua sexualidade? No fundo, estas questões possibilitaram a continuação da investigação, agora numa perspetiva comparativa. 

Tal como indico no livro, senti a necessidade de procurar um “passado comum” a pessoas com sexualidades dissidentes. E isso também revelava aquilo que, a meu ver, continuava “em falta”. Conhecemos alguns arquivos, o lado policial e político, mas as investigações realizadas, sobretudo em Portugal, mostravam pouco, a meu ver, esse lado mais quotidiano. No fundo, quis recolher as memórias destas pessoas e procurar uma genealogia, que é também a minha.

Um dos aspetos mais marcantes do livro é mostrar que, mesmo sob regimes ditatoriais, existiam formas de resistência que passavam pelos afetos, pelas redes de apoio e pela afirmação da identidade. O que significa, para ti, o conceito de “resistências quotidianas”?

Aprendi o conceito de “resistências quotidianas”, de James C. Scott, ainda durante a licenciatura em Antropologia, e acompanhou todo o meu percurso na academia. As “formas de resistência quotidiana” remetem para as formas de luta entre grupos subalternos e grupos dominantes. Dentro destas formas, encontramos as “armas dos fracos”. James C. Scott desenvolve-o para pensar as formas discretas de resistência de grupos subalternos (no caso, uma sociedade camponesa de Sedaka). No livro e na investigação que o precede, procurei adaptar esse conceito ao contexto das sexualidades dissidentes. Não se encontravam grandes formas de resistência ativa na Península Ibérica (não era possível). Por isso, a resistência utilizada era informal e dissimulada. Esse tipo de resistência é, aliás, visível noutros grupos, como mostra a Antropologia (mulheres, gente que trabalha em fábricas, pessoas racializadas…).

O livro dá voz a pessoas que viveram grande parte das suas vidas em silêncio. Como foi conquistar a confiança destes testemunhos e que impacto teve ouvi-los contar, muitas vezes pela primeira vez, as suas histórias?

Como escreve Paula Godinho, o saber das antropólogas assenta nas relações que constroem e é preciso tempo para fazer pela memória. Entrar no que designamos por “terreno” não foi um processo simples, mas foi facilitado pelo apoio de inúmeras pessoas que conheciam outras ou por associações LGBTI. No caso espanhol, o trabalho de campo foi desenvolvido de forma descontinuada, entre outubro de 2021 e finais de maio de 2022, em várias associações, onde estava com as pessoas e procurava integrar-me no seu quotidiano. O meu objetivo era aprender com elas e pensar em conjunto com elas sobre as suas memórias. É, na verdade, uma forma de fazer investigação que apliquei durante o meu percurso, o de fazer Antropologia com e para as pessoas. Queria, sobretudo, que elas se reconhecessem no livro.

Nas últimas décadas, Portugal registou avanços importantes nos direitos LGBTQIA+, mas assistimos hoje ao crescimento de discursos e movimentos que procuram travar ou reverter algumas dessas conquistas. Que lições nos pode dar a memória das ditaduras ibéricas para compreender este momento? Consideras que os direitos LGBTQIA+ estão verdadeiramente consolidados?

Nenhum direito está verdadeiramente consolidado. O crescimento de discursos que questionam, e pretendem eliminar, a existência de pessoas fora do espectro cisheteronormativo, não é novo. A história mostra-nos, aliás, como determinadas formas de repressão podem ser naturalizadas e institucionalizadas. Creio que é também por isso que é importante recuperar a memória histórica de grupos subalternos, já que possibilita analisar períodos anteriores, mas também pensar os momentos presentes e perspetivar o porvir. E, claro, lembra-nos que nenhum direito existe sem luta coletiva.

Para quem terminar a leitura de Memórias Dissidentes com vontade de aprofundar a história e a cultura LGBTQIA+, que livros ou autores recomendaria? Há obras que considera essenciais para construir uma biblioteca queer?

Acho que é possível aprofundar a história LGBTI de muitas maneiras. Claro que em termos académicos, é quase obrigatório passar por autoras e autores como Rafael Cáceres Feria, Gracia Trujillo, Daniela Ferrández (para o caso espanhol), ou António Fernando Cascais, Eduarda Ferreira, Anna Klobucka, ou Joana Matias, por exemplo (para o caso português). Mas creio que a recuperação das memórias dissidentes nos últimos tempos também se tem feito muito através da literatura, do teatro, de exposições e do cinema. E essa diversidade é mesmo muito importante, porque a recuperação destas memórias não se constrói apenas na academia. 

Diria que é um pouco difícil pensar em obras essenciais para construir uma biblioteca queer, porque isso acaba por depender um pouco da experiência de cada pessoa. Ainda assim, tenderia a fugir um pouco a uma perspetiva exclusivamente anglo-saxónica. Existe uma produção ibérica e latino-americana extremamente rica e interessante, e que nos permite pensar as nossas próprias realidades históricas, sociais e culturais. 

Para terminar, que mensagem gostarias que os leitores levassem contigo depois de ler Memórias Dissidentes e que significado continua a ter o Mês do Orgulho à luz da história que o livro recupera?

Gostaria que ficasse percetível que estas memórias não são apenas memórias individuais, mas coletivas, e profundamente ligadas a questões de poder. Importa também reconhecer que estas memórias fazem parte da história coletiva e não apenas da história LGBTI. Como escreveu Walter Benjamin, importa “escovar a história a contrapelo”. É um gesto de memória e de justiça, que recupera passados para pensar o presente e imaginar futuros possíveis. 

O mês do orgulho é a afirmação de uma luta coletiva contra diferentes formas de opressão. Lembra-nos que a nossa existência depende da organização conjunta e da resistência. 

 

Raquel Afonso é doutorada em Estudos de género e mestre em Antropologia. Trabalhou sobre dissidências sexuais, memória e formas de resistência em ditaduras. Publicou Homossexualidade e Resistência no Estado Novo (Lua Eléctrica, 2019), distinguido com uma Menção Honrosa pela Fundação Mário Soares e Maria Barroso (2020) e, mais recentemente, Memórias Dissidentes. Repressão e resistências quotidianas de homossexuais e lésbicas nas ditaduras ibéricas (Tigre de Papel, 2025).