À Conversa sobre Livros com Victor Correia

A leitura é, provavelmente, uma outra maneira de estar num lugar, escreveu o Nobel da literatura portuguesa, José Saramago.

Fonte inesgotável de conhecimento e prazer,  poderosa ferramenta de influência e transformação política, a leitura e a liberdade intelectual chegam até a ser censuradas por regimes repressivos, ditatoriais e totalitaristas, levando a que a informação, o espírito crítico sejam negados a grande parte das pessoas. 

Em pleno século XXI, assistimos cada vez mais a discursos de ódio, à propagação do medo e de conteúdos de desinformativos quanto a questões de género e sexualidade. Na Europa, EUA, Brasil e um pouco por todo o mundo, assiste-se à criação de campanhas de proibição de livros de temática LGBTQIA+. Com base em justificações de “promoção da homossexualidade” ou da “propaganda da ideologia de género”, grupos ideológicos conservadores mostram atentar a autodeterminação, a liberdade de expressão, a autodescoberta e visibilidade das experiências de pessoas LGBTQIA+.

Recordando a célebre frase de Oscar Wilde, preso numa altura em que a homossexualidade era considerada como vício e decadência, diria: “Não existem livros morais ou imorais. Os livros ou são bem escritos ou não.”

Reconhecendo a importância da leitura e da educação para as temáticas de igualdade e não discriminação, pretendemos conhecer as estantes Queer e Feministas de algumas personalidades portuguesas. Nesta conversa estivemos com Victor Correia, autor do livro “História da Homossexualidade em Portugal – Desde o Séc. XIII até ao Séc. XX”.

Victor Correia é pós-doutorado em Ética e Filosofia Política, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, autor de mais de vinte livros, publicados em diversas editoras e a propósito da sua mais recente obra, questionamos o autor:

Como surgiu a ideia de escrever um livro sobre a história da homossexualidade em Portugal?

Surgiu na sequência da minha investigação para outro livro de que sou autor : “O tamanho do nosso sonho é difícil de descrever – antologia do homoerotismo na poesia portuguesa, dos cancioneiros medievais à atualidade”.

Fiquei surpreendido com a quantidade de poetas e poemas que ao longo da História da Literatura em Portugal, se referiram à homossexualidade. Achei que era importante conhecer não apenas a História da Literatura, mas a própria História da homossexualidade em Portugal, ao longo dos séculos.

O título cobre do século XIII ao século XX — porque escolheu este intervalo de tempo?

Porque a História da Homossexualidade em Portugal só estava estudada e publicada sobre o período do Estado Novo.  Achei que era importante conhecer os também os outros séculos, investigar uma história que já vem desde a Idade Média, e mostrar que a homossexualidade em Portugal não é uma moda nem uma modernice, ao contrário do que algumas críticas homofóbicas tendem a apontar.

Descobriu histórias ou figuras que o surpreenderam durante a investigação?

Sim, muitas, como por exemplo as histórias da homossexualidade praticadas no Portugal colonial; as histórias com mouros e judeus no Portugal continental; as figuras dos aristocratas, assim como de padres, frades e freiras. Nas figuras, destaco o conde de Vila Franca, no século XVI e XVII, e o marquês de Valada, no século XIX.

Quais os momentos históricos de maior repressão e há algum período que denote maior tolerância?

O momento histórico de maior repressão foi o século XVII, operada pela Inquisição Portuguesa, nem a perda nem a restauração da independência, embora tivessem sido períodos novos na História de Portugal, contribuíram para amenizar a discriminação, e no meu livro eu mostro através de vários documentos que esse século foi o mais repressor. O domínio espanhol em Portugal terá contribuído para isso, pois a Inquisição espanhola era a mais rigorosa de todas as Inquisições.

No que diz respeito ao período de maior tolerância antes da revolução portuguesa de 25 de Abril de 1974, foi o período dos chamados “loucos anos 20”, na sequência da instauração da República em Portugal.

Há algum episódio ou personagem do livro que o tenha tocado particularmente?

Sim. A relação entre o rei D. João VI com o seu camareiro-mor, a quem escrevia cartas de amor, que eu transcrevo integralmente no meu livro. D. João VI era casado, por conveniência institucional, para assegurar a descendência no trono do Portugal, mas interessava-se muito pouco pela sua mulher, conforme mostro neste livro. O facto de se ter casado não quer dizer nada, pois sempre houve muitos homossexuais que se casaram ao longo da História de Portugal, por motivos sociais, mas que praticavam na mesma a homossexualidade e que tiveram amantes, e parceiros sexuais, como aliás ainda hoje acontece, dado que continua a haver homossexuais casados com pessoas de outro sexo, embora menos, dado que atualmente os homossexuais sentem-se menos levados a casarem-se ou a terem uma relação com uma pessoa do sexo oposto (geralmente para manterem as aparências), ao contrário do que sucedia no passado.

Podemos dizer que parte desta história (da homossexualidade) ainda continua invisível ou silenciada hoje?

Sim, sobretudo nas Escola e nas Universidades. Ensina-se História, fala-se das relações conjugais e amorosas das grandes figuras da História de Portugal, mas nunca das relações homoafetivas e homossexuais.

Como foi lançar um livro sobre um tema ainda tabu para muitos?

Foi fácil. A editora aceitou imediatamente a minha proposta. O lançamento teve muita gente na sala, o livro tem sido noticiado por vários órgãos de comunicação social, e tem-se vendido bem, pois é um tema realmente inédito, dado que não existia ainda nenhum livro sobre a História da Homossexualidade em Portugal.

Por fim: Que contributo espera que esta obra tenha no debate atual sobre direitos LGBTQ+ em Portugal?

A consciencialização de que a homossexualidade é um facto histórico muito antigo em Portugal,  praticada por diversas classes sociais, e que portanto não é característica apenas de determinados tipos de pessoas, e que não é uma invenção moderna. Ora, no que diz respeito aos direitos, falando-se tanto em direitos nos que diz respeito aos vários setores sociais (direitos das mulheres, direitos dos trabalhadores, etc.), é preciso não esquecer que os homossexuais também têm os seus direitos. Este livro mostra que, com os seus altos e baixos, cada época, e cada figura ou grupos que se destacaram ao longo dos séculos, contribuíram a pouco e pouco, e cada um à sua maneira, para uma maior liberdade sexual, que hoje devemos considerar como um direito, e não como uma mera questão de tolerância, como sucedia noutras épocas da História de Portugal, em que embora não aceite como um direito, era encarada por vezes  com tolerância, como mostro neste livro.