A memória como resistência: o novo livro de Raquel Afonso recupera as histórias silenciadas das ditaduras ibéricas

Há livros que ampliam o conhecimento. Outros desafiam as narrativas estabelecidas. Memórias Dissidentes. Repressão e resistências quotidianas de homossexuais e lésbicas nas ditaduras ibéricas, de Raquel Afonso, consegue fazer ambas as coisas: recupera histórias durante muito tempo esquecidas e convida-nos a repensar a forma como olhamos para o passado recente de Portugal e de Espanha.

Depois de Homossexualidade e Resistência no Estado Novo, obra que revelou os mecanismos de repressão, vigilância e controlo exercidos sobre pessoas homossexuais durante a ditadura portuguesa, Raquel Afonso dá agora um passo decisivo. Se o livro anterior incidia sobre o contexto português, Memórias Dissidentes alarga o horizonte de análise às duas ditaduras ibéricas, estabelecendo um diálogo entre as experiências vividas em Portugal e em Espanha.

A autora desloca também o foco da repressão institucional para o quotidiano. Sem desvalorizar o papel do Estado, mostra como a discriminação se fazia sentir na família, no trabalho, na escola, na religião e nos espaços públicos, condicionando vidas e impondo silêncios. Ao mesmo tempo, revela as múltiplas formas de resistência desenvolvidas por homossexuais e lésbicas para afirmarem a sua identidade, construírem redes de solidariedade e encontrarem espaços de liberdade em contextos profundamente hostis.

Mais do que uma história da perseguição, Memórias Dissidentes é uma história da sobrevivência. A obra evidencia que, mesmo perante a criminalização, o estigma e a exclusão social, existiram estratégias de afirmação, afetos, comunidades e formas de resistência que desafiaram a ordem moral imposta pelos regimes autoritários.

Um dos maiores méritos do livro reside precisamente na recuperação destas memórias. Durante décadas, a história das pessoas LGBTQIA+ foi marginalizada ou simplesmente omitida dos discursos oficiais, dos manuais escolares e da memória coletiva. Ao reunir documentação, testemunhos e uma investigação rigorosa, Raquel Afonso contribui para preencher uma lacuna importante da historiografia contemporânea, devolvendo visibilidade a pessoas cuja experiência permaneceu, durante demasiado tempo, ausente da narrativa democrática.

Num momento em que o debate público sobre direitos, igualdade e diversidade continua a suscitar tensões e em que assistimos, em vários países, ao ressurgimento de discursos que procuram deslegitimar conquistas históricas, esta obra assume uma particular relevância. Conhecer o passado torna-se um exercício de cidadania. Compreender os mecanismos de repressão ajuda-nos a reconhecer os sinais da exclusão no presente. E preservar estas memórias significa afirmar que nenhuma democracia está completa se ignorar as histórias das suas minorias.

Ao cruzar investigação histórica, memória e reflexão crítica, Memórias Dissidentes ultrapassa o interesse académico. É um livro para historiadores, estudantes e investigadores, mas também para todas as pessoas que acreditam que a democracia se constrói através do reconhecimento da pluralidade das experiências humanas.

Com esta nova obra, Raquel Afonso consolida um percurso de investigação pioneiro sobre a história LGBTQIA+ na Península Ibérica. Se Homossexualidade e Resistência no Estado Novo revelou a violência da repressão, Memórias Dissidentes acrescenta-lhe as vozes, os rostos e as vivências daqueles que, apesar do medo e do silêncio impostos, encontraram formas de resistir.

Porque a memória não é apenas um exercício sobre o passado. É uma condição para compreender o presente e para construir um futuro mais livre, mais justo e mais inclusivo.