As Mulheres e os Homens

As mulheres e os homens são muito parecidos, embora pareçam muito diferentes.

Os homens parecem mais importantes do que as mulheres.

As mulheres parecem mais frágeis, mas, na verdade, não são.

Há mulheres importantes e homens frágeis.

Há mulheres hábeis e homens desastrados.

Há mulheres valentes e homens cobardes.

Também há homens importantes, hábeis e valentes…

Porque a inteligência, o trabalho e o valor não têm nada que ver com ser homem ou mulher.

Na verdade, as mulheres e os homens são iguais em quase tudo. Só são diferentes por terem um sexo diferente.”

Equipo Plantel, As Mulheres e os Homens (Orfeu Negro, 2023)

Pensado para os leitores mais jovens esta é uma obra originalmente publicada entre 1977 e 1978 pela editora La Gaya Ciencia, de Barcelona, numa coleção de «Libros para Mañana», livros que marcam uma época de transição democrática em Espanha e em Portugal com a morte dos seus ditadores – Franco e Salazar.

Quarenta anos depois da sua publicação a editora espanhola Media Vaca decidiu voltar a editá-los com novas ilustrações – da fantástica ilustradora catalã Luci Gutiérrez – mantendo o texto original na sua íntegra. Talvez esta seja a única inexatidão do livro que, ainda com quatro décadas, mostra a sua atualidade e importância.

Descortinando estereótipos de género, a diferença entre sexos e os papeis sociais atribuídos ao binário de género – masculino/feminino -, o livro pauta-se pela desnaturalização e crítica à desigualdade perpetuada entre homens e mulheres baseada na diferença entre sexos. É aqui, nesta relação do sexo anatómico e características biológicas com a construção social do género que podemos encontrar a nossa inquietação com o livro uma vez que é perpetuada a associação da experiência de género com a diferença (binária) entre sexos.

Vejamos primeiro, o que nos diz o conceito de género? O género refere-se aos papéis e responsabilidades das mulheres e dos homens, os quais são construídos nas nossas famílias, sociedades e culturas. O conceito de género inclui também as expectativas sobre as características, aptidões e comportamentos expectáveis de mulheres e de homens (feminidade e masculinidade).

E a identidade de género? A identidade de género diz respeito à experiência interna e individual sentida por cada pessoa relativamente ao género com que se identifica, que pode ou não corresponder ao sexo atribuído à nascença. Pode envolver, se livremente escolhido, a modificação da aparência ou do corpo por meios cirúrgicos, farmacológicos ou outros.

Enquanto que, a diferença de sexo, se refere às características biológicas e fisiológicas que definem mulheres e homens. “Macho” e “Fêmea” são categorias sexuais. Atributos, características e papéis que são ou deveriam ser possuídos ou desempenhados por mulheres e por homens, em função do seu sexo. Os estereótipos de género são prejudiciais pois constituem um obstáculo à igualdade e sustentam a discriminação em função do sexo.

Talvez a inclusão destes conceitos num livro que promove a educação para a cidadania e igualdade de género facilitassem a compreensão de questões em torno da identidade que à partida são fáceis de entender mas que ainda assim causam algum embaraço e/ou confusão.

Ainda assim, este é um álbum irreverente para a sua época que frisa o que falta fazer para alcançar a igualdade entre géneros. Mostra a importância da educação para a igualdade e para a eliminação de abusos e comportamentos sexistas que continuam a ser alimentados numa sociedade hierarquicamente dividida pelo binário sexo/género.

 

Book trailer AS MULHERES E OS HOMENS, de Equipo Plantel & Luci Gutiérrez (2023)

ISBN: 9789898327765 Editor: Orfeu Negro Páginas: 56