Conceição Evaristo no BABELL Festival: três livros para descobrir uma das vozes mais importantes da literatura brasileira contemporânea

A presença de Conceição Evaristo na primeira edição do BABELL Festival Literário, no Porto, é um dos momentos mais aguardados da programação. Escritora, poeta e ensaísta brasileira, Evaristo construiu uma obra incontornável para quem procura compreender as intersecções entre raça, género, classe, memória e resistência na literatura contemporânea.

No dia 26 de junho, às 16h, no Largo de Santo Ildefonso (Batalha), a autora estará à conversa com Milton Hatoum, num encontro moderado por Minês Castanheira e acompanhado por leituras de Francisca Bartilotti. Será uma oportunidade rara para ouvir uma autora que transformou a experiência vivida em matéria literária, dando voz a histórias frequentemente excluídas dos cânones tradicionais.

Para assinalar a sua passagem por Portugal, destacamos três obras publicadas pela Orfeu Negro que permitem entrar no universo singular da autora.

Olhos d’Água (2024)

Vencedor do Prémio Jabuti em 2015, Olhos d’Água reúne contos que retratam o quotidiano de mulheres, homens e crianças negras marcados pela precariedade, pela violência e pela exclusão social. Contudo, estas histórias não se limitam à denúncia. Há nelas uma profunda dimensão humana, onde a dignidade, o afeto e a capacidade de resistência emergem como forças transformadoras.

A escrita de Conceição Evaristo move-se entre a delicadeza poética e a contundência política, revelando vidas que raramente ocupam o centro da narrativa literária. Cada conto é um convite a olhar para as desigualdades estruturais sem perder de vista a humanidade das suas personagens.

Canção para Ninar Menino Grande (2024)

Neste romance, Evaristo desloca o olhar para as masculinidades e para os afetos, explorando a trajetória de Fio Jasmim, um homem cuja vida amorosa se desenrola através das relações que estabelece com diferentes mulheres.

Com a subtileza que caracteriza a autora, o livro questiona modelos tradicionais de género e examina as formas como o amor, o desejo, a memória e a vulnerabilidade moldam as identidades. É uma obra que amplia o alcance temático da sua escrita, mantendo o compromisso com uma literatura profundamente atenta às complexidades da experiência humana.

Ponciá Vicêncio (2026)

Publicado originalmente em 2003 e considerado um clássico da literatura afro-brasileira contemporânea, Ponciá Vicêncio acompanha a jornada de uma jovem mulher negra que procura reconstruir a sua identidade a partir das memórias familiares e da herança ancestral.

O romance aborda questões de pertença, deslocação e memória coletiva, refletindo sobre as marcas deixadas pela escravatura e pelas desigualdades sociais no Brasil contemporâneo. A protagonista procura compreender quem é e de onde vem, numa narrativa que articula intimidade e história, experiência individual e memória coletiva.

Uma voz essencial para pensar o presente

A obra de Conceição Evaristo tem sido fundamental para a valorização da cultura afro-brasileira e para a afirmação de vozes historicamente marginalizadas. O conceito de “escrevivência”, criado pela própria autora, traduz a forma como a escrita nasce da experiência vivida e da memória coletiva, transformando-se num instrumento de resistência, afirmação e criação.

Num momento em que as discussões sobre identidade, diversidade e representatividade continuam a ocupar um lugar central no debate cultural, a presença de Conceição Evaristo no BABELL Festival assume uma relevância particular. Ler os seus livros é entrar em contacto com histórias que desafiam silêncios, ampliam perspetivas e recordam o poder transformador da literatura.

Para quem ainda não conhece a autora, Olhos d’Água, Canção para Ninar Menino Grande e Ponciá Vicêncio são três excelentes portas de entrada para uma obra que continua a marcar leitores em todo o mundo.