A vergonha aprende-se cedo.
Não gesticules tanto.
Não exageres.
Não ocupes demasiado espaço.
Não pareças «de mais».
E o mais perigoso:
Esconde-te antes que te escondam.
Durante mais de uma década, Francisco Soares — conhecido como Kiko is Hot — construiu uma das presenças mais marcantes da internet portuguesa. Humor, comentário social, cultura pop, ativismo e uma relação direta com centenas de milhares de pessoas fizeram dele uma das vozes mais reconhecíveis da sua geração. Mas Icónico não é a história da persona; é a tentativa de compreender a pessoa por detrás dela.
Publicado pela Albatroz, Icónico conta o percurso de alguém que cresceu num mundo cada vez mais mediado pelas redes sociais, onde a visibilidade pode ser simultaneamente oportunidade e violência. O livro acompanha uma infância marcada pela sensação de não pertencer, a construção de uma identidade pública através do humor e o impacto que essa exposição teve na forma de viver o corpo, a saúde mental, o desejo e a relação com os outros.
Embora parta da experiência pessoal do autor, Icónico ultrapassa rapidamente o registo autobiográfico. A narrativa transforma-se num retrato de uma geração que aprendeu a comunicar através da internet, que encontrou nas redes sociais um espaço de afirmação, mas também um lugar onde a aprovação, a crítica e o escrutínio permanente passaram a fazer parte da vida quotidiana.
Um dos aspetos mais interessantes da obra é a forma como Kiko is Hot recusa a dicotomia entre humor e vulnerabilidade. O mesmo olhar irónico que o tornou conhecido serve aqui para abordar temas como o bullying, a identidade, a ansiedade, a autoestima e a necessidade de pertença, sem perder o ritmo, a inteligência nem a capacidade de fazer rir. O humor surge menos como fuga do que como uma estratégia de sobrevivência.
Icónico é, acima de tudo, um convite a olhar para lá da imagem cuidadosamente construída nas redes sociais e a reconhecer a complexidade de quem vive sob o peso permanente da visibilidade.