“Em Outubro de 1922, sai a público o quarto número da Contemporânea, cujas páginas albergam, da pena do jornalista e polemista Álvaro Maia, o texto «Literatura de Sodoma. O Sr. Fernando Pessoa e o ideal estético em Portugal». Este artigo, como o próprio título indica, é a resposta a outro, que, no número anterior da revista, dado à estampa em Julho do mesmo ano, Fernando Pessoa publicara, com o título «António Botto e o ideal estético em Portugal». Estão, pois, abertas as hostilidades, o verniz estalando em todas as direcções, e a polémica mais hilariante do Portugal da época finalmente instalada.”
Zetho Cunha Gonçalves, Notícia do Maior Escândalo Erótico-Social do Século XX em Portugal (Letra Livre, 2014)
A obra “Notícia do Maior Escândalo Erótico-Social do Século XX em Portugal”, escrita por Zetho Cunha Gonçalves, é uma antologia que reune as peças mais importantes daquela que fora a maior polémica erótico-social do séc. XX.
A polémica em torno dos “Poetas de Sodoma” surge principalmente devido à natureza transgressora e ousada das suas obras, que desafiavam as normas sociais, morais e religiosas vigentes em Portugal no final do século XIX e início do século XX. O nome “Poetas de Sodoma”, um grupo de escritores que exploraram abertamente temas como a homossexualidade, o erotismo, a decadência e a crítica ao sistema moral dominante, vista como escandalosa e, muitas vezes, como uma afronta aos valores tradicionais da sociedade portuguesa da época.
Entre os autores que ousaram abordar o que a sociedade considerava imoral ou decadente, com uma escrita muitas vezes visceral, emotiva e desafiadora encontramos Judith Teixeira, Raul Leal e António Bottto, poetas que ao lado de Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro e Almada Negreiros estavam em oposição a uma sociedade profundamente conservadora e religiosa, onde questões como a homossexualidade e o erotismo eram vistas como escandalosas e muitas vezes criminalizadas, tendo os seus livros sido apreendidos e queimados.
Dividido em duas partes, durante e para além da polémica, encontramos nesta obra textos de Fernando Pessoa, Raul Leal, António Botto, Júlio Dantas, a Liga de Ação dos Estudantes de Lisboa – movimento estudantil importante dos anos 1920 responsável pelo encabeçar da polémica e apreensão dos livros – assim como um artigo de Marcelo Caetano, publicado em 1926, a respeito da publicação da obra de Judith Teixeira “Nua”, que nos dá conta do cariz autoritário e religioso daquele que viria a ser o regime do Estado Novo.
ISBN:9789898268211 Editora: Letra Livre Páginas: 219