Conversa com André Murraças
Fomos conhecer o mais recente projeto do já nosso conhecido e muito querido André Murraças, encenador, dramaturgo, cenógrafo mas também investigador do património LGBTQ+ português, que agora nos propõe uma releitura queer das coleções dos museus portugueses.
Como surge este projeto, “O Museu Fora do Armário”?
Surge de um trabalho que deve ser feito com os museus. Os museus, por norma, não mostram a diversidade sexual, e temem referir as vidas que muitos artistas tiveram de levar escondidos, no contexto certo que nos possa fazer entender determinada obra.
Urge que os museus façam aproximações novas às suas coleções, através de outros itinerários expositivos que convidem os visitantes a contemplar outras relações sentimentais fora daquelas ditas normativas.
Numa altura em que defendemos conceitos como inclusão e diversidade, torna-se vital olhar para as coleções dos museus e procurar outras histórias escondidas, mesmo à nossa frente. Lá fora, noutros museus existem vários exemplos. E portugal?

Que artistas queer portugueses consideras que ainda faltam resgatar da memória?
Muitos. Há obras e artistas que por contexto social, ou incapacidade dos espaços lidarem com isso, nunca fora expostos, estão em reservas, etc. Não consigo apontar um ou dez. Há imensos.
Existe um apagamento destas personalidades nas coleções dos museus portugueses?
Não diria apagamento. Diriam que é uma presença ausente. Eles existem. Há que procurar e mostrar.
Porquê a casa Fernando Pessoa como local de inauguração deste projeto? E que outros espaços podemos contar visitar?
Foi um acaso. Este projeto propõe uma releitura queer das coleções dos museus e irá acontecer em diferentes museus portugueses. O primeiro museu a receber o projeto é a Casa Fernando Pessoa – Museu de Literatura, para onde foi pensada uma intervenção expositiva na biblioteca particular do escritor, destacando autores e livros com personagens e vivências queer, ou temas fora da heteronormatividade. Por entre a coleção pessoal de livros que pertenceram a Fernando Pessoa, encontramos uma variedade de obras sobre vivências queer – algo que temos como recente, mas que na verdade sempre existiu. Aqui é possível ver até janeiro, dentro da exposição permanente, uma selecção de livros, alguns expostos pela primeira vez.
A seguir, em novembro, vamos ter visitas guiadas no Museu de Lisboa – Palácio Pimenta. Para o ano há Teatro Romano, Museu Nacional do Teatro e da Dança, entre outros.
Lanças também a revista Marginália, revista com textos de apoio, artigos e ilustrações em volta de livros e autores queer que resgatas nas tuas exposições. Podes-nos falar um pouco mais desta primeira edição e a quem ela se dedica?
A revista é um complemento. Nas exposições e visitas que fizer nos espaços haverá sempre legendas e folha de sala. Mas senti que faltava algo que ficasse, mais completo. A revista é feita para cada museu (por isso o primeiro número é sobre a Casa Fernando Pessoa), a seguir é o Palácio Pimenta, e por ai fora. Este primeiro número fala dos livros queer que podemos encontrar na Casa, de forma mais desenvolvida, com bibliografia, artigos de pessoas convidadas (Anna Klobucka e Joana Matias), ilustrações, referências.
