O perigo das vírgulas malpostas

Mil novecentos e noventa e seis. Eu tinha oito anos e eu costumava dançar na sala. A minha mãe nunca se importava com a música alta e o meu pai quase nunca estava em casa. Eu girava, saltava, inventava coreografias, imitava os meus artistas favoritos, imaginava um microfone e sonhava. O suor era o líquido que transformava o chão da sala em palco. Eu era feliz.
Um dia, o meu pai me viu na sala. Ríspido, disse que a música estava muito alta. Eu diminuí o volume e continuei a dançar. Mas não pareceu suficiente, o meu pai voltou à sala e, ainda mais áspero, desligou o som com a justificativa de que queria ver a tv em paz. Respondi que ia usar o walkman. Eu só queria dançar. Ele saiu de casa visivelmente agitado. Eu dancei.
Mas esse foi só o primeiro dia. Depois houve outro. E outro. O meu pai bebia. Eu só queria dançar. O sofá cheirava sempre a cerveja. Eu confundia com o cheiro do meu pai.
— Homem não dança desse jeito!

(O que é ser homem?, pág. 13)

O perigo das vírgulas malpostas surge como um conjunto de contos (ou narrativas curtas) que se debruçam sobre a experiência queer, a identidade em transição, o corpo, o desejo e as normas sociais — tal como a editora define: “aventure-se nas profundezas da experiência queer, desafia as normas sociais e explora a complexidade da identidade”.

Felipe Castro aborda temas vitais: identidade que se descobre, desejo que não se silencia, corpo que resiste a normas, liberdade como meta e não apenas como ideal. A preponderância de temas queer torna o livro significativo no contexto português-lusófono, onde ainda há lacunas de representação. O lançamento no Centro LGBTI+ da ILGA Portugal evidencia essa aposta na visibilidade.

É importante perceber este livro como início ou passo dentro de um percurso literário maior: para quem procura obras com análise teórica extensa, foco académico ou estrutura robusta de ensaio, talvez seja necessário complementá-lo com outros textos. Mas para quem procura experiência literária, voz verdadeiramente queer em português, e escrita que provoca, este livro cumpre e excede expectativas.

ISBN: 978-85-7105-250-5 EditorEditora Urutau Páginas: 160

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