“Em várias zonas do mundo, imagina-se que o género é ameaça às crianças, à segurança nacional ou ao casamento heterossexual e à família normativa, mas também conspiração das elites para imporem os seus valores culturais às «pessoas reais», num plano concebido para os centros urbanos do Norte global colonizarem o Sul global. O género é retratado como conjunto de ideias que se opõe à ciência, à religião ou a ambas, ou como ameaça à civilização, negação da Natureza, ataque à masculinidade ou eliminação das diferenças entre os sexos. Por vezes vê-se o género como perigo totalitarista ou obra do Diabo, projectado assim como a força mais destrutiva do mundo, perigoso rival contemporâneo de Deus que é preciso a qualquer custo rebater ou destruir.”
Judith Butler, Quem tem medo do género? (Orfeu Negro, 2024)
Depois de Problemas de Género (2017), Corpos que Importam (2023) e A Pretensão de Antígona (2024), a Orfeu Negro presenteia-nos com a mais recente obra da académica queer-feminista norte-americana, Judith Butler. É verdade, Quem tem medo do Género? (2024), é a segunda obra da filósofa que a editora nos traz este ano fazendo do ano de 2024 um dos mais profícuos nas publicações queer-feministas da chancela.
Quem tem medo do Género? não é uma obra qualquer. Não poderia ser uma obra qualquer para quem está familiarizado com o olhar crítico e analítico da autora. Mas esta obra revela-nos ser especial. Especial porquê? Bem, esta é não só uma obra publicada e traduzida para o português no presente ano de 2024 – tradução acérrima a que nos habituara Nuno Quintas – o que a torna extremamente fresca e atual, como ao mesmo tempo reflete em retrospetiva a teoria da performatividade de género e a causabilidade do binarismo de género enquanto realidade colonial do norte global que a autora nos oferecera nos idos anos 1990 com Problema de Género.
Dividida em 10 capítulos principais, plus uma introdução e conclusão de tirar o fôlego, Butler discorre sobre os atuais fantasmas que pairam em torno do género e da “ideologia de género” por forças políticas e religiosas conservadoras por todo o mundo. Da Rússia aos Estados Unidos da América, vamos percebendo como este conceito tem sido resignificado e reiterado nos últimos anos, especialmente após o Vaticano o considerar como uma ameaça à família e autoridade bíblica nos anos 1990, para atacar determinados movimentos sociais e os direitos de liberdade e igualdade de determinados grupos de pessoas (nomeadamente mulheres e pessoas LGBTQIA+).
Percebemos como a política do medo tem sido instrumentalizada para negar os direitos de pessoas trans e não binárias do direito à autodeterminação, do direito à família por casais LGBTQIA+ assim como o direito ao corpo e saúde reprodutiva de mulheres cis, resumidamente a contestação de um status quo heteronormativo que coloca a ênfase no poder natural e teológico do homem sobre a mulher.
Este livro propõe-nos refletir, discutir, debater problemas políticos da ordem do dia, mostrando como as guerras culturais em torno do género são não só um problema intrinseco à corporização da vida social como pode ser um foco de ansiedade, fantasia, liberdade e até terror entre nós e o ruborizar de novos furores fascistas e regimes autoritaristas. Um livro que, como Butler nos habituou, nos oferece uma leitura capaz de abrir novas possibilidades de espírito e o repensar da organização da sexualidade, do género e da forma como nos referimos às pessoas.
ISBN: 9789899225053 Editor: Orfeu Negro Páginas: 400