Rute Bianca
“É verdade, verdadinha… doa a quem doer… e depois falam do alto índice de mortalidade entre as trans. Claro que se matam… são desprezadas, ridicularizadas, não têm oportunidades de emprego e algumas são empurradas para a prostituição, onde têm de servir as taras, manias, aberrações e gostos de toda a espécie de indivíduos que as procuram e muitas vezes as maltratam, roubam e matam (acontecia, mas não era noticiado… não valia a pena… até que, com a morte da Gisberta, tudo mudou. Mas tantas morreram…). Cospem nelas durante o dia, mas à noite procuram-nas e pagam-lhes fortunas (dependendo do tamanho do pirulito delas, que é pago a peso de oiro). Alguém tinha de ter a coragem de dizê-lo… mais tarde ou mais cedo.
Está dito, gostem ou não gostem… homens de todas as idades e estratos sociais. Alguns são muito perversos… de dia, mostram-se como bons chefes de família e parecem uns anjinhos, mas à noite, transformam-se em predadores em busca do maior e mais comprido (desculpem a linguagem). É a verdade, sem tirar nem pôr… é só perguntar às trans (não operadas) que são obrigadas a prostituírem-se para sobreviver. Toda a gente sabe, mas fazem de conta, “assobiam para o lado”.”Quem? Rute Bianca, Edição da autora, 2025
Rute Bianca – uma das pioneiras do ativismo trans em Portugal – partilha as suas memórias — desde a infância até ao processo de transição de género e à sua vida enquanto mulher trans em Portugal. A obra ganha força precisamente por esse carácter sincero, personalíssimo, e ao dar corpo a uma experiência que continua invisibilizada em muitos meios.
O livro assume-se não apenas como autobiografia pessoal, mas como acto de visibilidade colectiva: ao afirmar-se como mulher trans que “se fez” e que ganhou espaço público, Rute Bianca contribui para uma mudança cultural.
“Quem?” é uma obra essencial no panorama da literatura queer portuguesa contemporânea — pelo que representa, pela voz que dá, pela coragem de narrar uma vida que teve de lutar por existir e ser visível. É muito bem-vinda e assume importância tanto literária como social.
Se eu tivesse de dar uma avaliação final: uma leitura altamente recomendável para quem quer compreender vidas trans em Portugal, para quem procura visibilidade e identidade literárias.
ISBN: xxxxxxxxxx Editor: Edição da autora Páginas: 146