Teoria Feminista

O problema principal no discurso feminista é a nossa incapacidade de chegar a um consenso sobre o que é o feminismo ou de aceitar uma ou mais definições que sirvam de ponto de união. Se não houver definições consensuais, carecemos de uma base sólida sobre a qual possamos construir a teoria ou envolver-nos numa prática relevante.

(…)

Não tem graça. Revela uma crescente falta de interesse no feminismo, na sua qualidade de movimento político radi-cal. É um sinal desesperante que expressa a crença de que a solidariedade entre mulheres é impossível. É um indício da abundante ingenuidade que tem caracterizado tradicionalmente o destino das mulheres numa cultura dominada pelos homens.”

Bell Hooks, Teoria Feminista (Orfeu Negro, 2022)

Gloria Jean Watkins (1952-2021), conhecida pelo pseudónimo bell hooks, com mais de trinta títulos publicados, é hoje uma das autoras mais incontornáveis e importantes da teoria e epistemologia feminista. Depois de obras como Não Serei Eu Mulher? As Mulheres Negras e o Feminismo (2018) – o seu primeiro livro feminista – e Tudo do Amor (2023), também com chancela da Orfeu Negro, recordamos Teoria Feminista – Da Margem ao Centro (2022), obra publicada em 1984 e que mostra permanecer um texto actual e provocador, mantendo o registo crítico e directo da autora.

Académica, feminista e activista social, o trabalho de bell hooks incide na interseccionalidade da raça, da classe social e do género, e nos modos como estas categorias produzem e perpetuam sistemas de opressão e dominação, reforçando a estrutura capitalista patriarcal. Nesta obra, composta por doze capítulos principais, a autora reflete sobre o panorama dos feminismos nos EUA naquela década (1984), apontando as potencialidades e desafios que este enfrenta(va) numa sociedade em constante transformação assim como a realidade das formas de opressão – a tríade opressora (sexismo, racismo e classismo) – experienciadas pelas mulheres norte-americanas.

“Nos Estados Unidos, o movimento feminista contemporâneo alertou para a exploração e a opressão das mulheres no mundo. Foi um grande contributo para a luta feminista. Neste anseio de chamar a atenção para a injustiça sexista, as mulheres concentraram-se quase em exclusivo na ideologia e na prática da dominação masculina. Infelizmente, isto levou-nos a acreditar que o feminismo estava mais próximo de ser uma declaração de guerra entre sexos do que uma luta política contra a opressão sexista, uma luta que implicaria mudança das mulheres e dos homens. Subjacente à retórica de emancipação de muitas mulheres brancas estava implícito que os homens nada tinham a ganhar com o movimento feminista e que o êxito das mulheres os tornaria perdedores. As militantes brancas estavam particularmente ansiosas por privilegiar as mulheres em detrimento dos homens através do movimento feminista.”

Bell Hooks, Teoria Feminista (Orfeu Negro, 2022)

Uma obra de linguagem fácil, cuidadosa que expõe um olhar crítico ao feminismo, a partir de dentro, e que nos permite construir ou reconstruir ideias em torno de aspetos pertinentes dos feminismos contemporâneos, das suas limitações e do seu compromisso intrínseco com a transformação da realidade sociedade, exemplo disso é a importância de entender o conceito de feminismo; perceber o motivo da resistência de muitas mulheres em fazer parte do movimento; assim como da aversão ao masculino como uma estratégia que não favorece o fortalecimento do movimento.

Uma obra que ainda escrita há quatro décadas, com uma bagagem histórica e teórica admirável, não perde a sua atualidade nem o seu espírito intelectual provocativo nos tempos que correm reivindicando valores feministas como a paz, a liberdade e a justiça.

ISBN: 978989 9071421 Editor: Orfeu Negro Páginas: 328